

Estamos prolongando a vida… ou prolongando a dependência medicamentosa?
Existe uma frase que gosto de repetir: A Gerontologia é a ciência que decifra o amanhã — que já habitamos hoje. Envelhecer não começa aos 60 ou 70 anos, começa nas decisões clínicas que tomamos aos 40, 50 e 60 anos.
A Gerontologia não estuda apenas idade cronológica. Ela analisa trajetória funcional, reserva fisiológica, autonomia, cognição, risco de quedas, força muscular e capacidade adaptativa ao longo do tempo. Mas há um fator que raramente entra nessa equação de maneira estratégica: a farmacoterapia crônica.
Vivemos a era da polifarmácia. É cada vez mais comum encontrar pacientes que utilizam três, cinco ou mais medicamentos contínuos. O problema não está necessariamente no uso do medicamento. O problema está na ausência de revisão estruturada, individualizada e projetiva.
Medicamentos podem: reduzir a reserva cognitiva ao longo dos anos, aumentar o risco de quedas, contribuir para perda de massa muscular, alterar o metabolismo o perfil inflamatório, interagir com doenças já existentes e gerar cascatas terapêuticas (um medicamento para tratar o efeito adverso de outro).
Estes efeitos nem sempre são percebidos no curto prazo, mas tornam-se decisivos na qualidade de vida futura. Então, a pergunta precisa ser feita. Na prática clínica tradicional, a pergunta costuma ser: “O exame está controlado?”. Mas talvez devêssemos perguntar: “Se esse paciente permanecer nesse regime farmacológico pelos próximos 10 anos, qual será sua autonomia?”
Controlar números não é sinônimo de preservar funcionalidade e envelhecer é acumular exposições, não é apenas acumular anos, é acumular exposições biológicas. E o medicamento é uma das exposições mais potentes que um indivíduo pode ter ao longo da vida.
Quando unimos a ciência do envelhecimento com a revisão criteriosa da farmacoterapia, deixamos de atuar apenas no tratamento da doença e passamos a atuar na construção da trajetória de envelhecimento. Isso significa avaliar o risco cognitivo futuro, antecipar o declínio funcional, reduzir interações medicamento-doença, minimizar carga farmacológica desnecessária e preservar autonomia, pois o futuro é uma construção terapêutica.
Talvez o maior desafio da medicina contemporânea não seja apenas controlar doenças crônicas e sim evitar que o tratamento se transforme em fator de fragilidade futura.
Cada medicamento prescrito carrega um impacto que ultrapassa o sintoma imediato.
Quando não revisamos a farmacoterapia com olhar gerontológico, podemos estar, involuntariamente, construindo dependência funcional.
A pergunta que precisa ecoar na prática clínica é simples — e profunda: Estamos apenas mantendo pacientes vivos… ou estamos preservando sua capacidade de viver com independência? A integração entre a ciência do envelhecimento e a revisão criteriosa dos medicamentos não é uma tendência. É uma necessidade. Porque qualidade de vida na velhice não é consequência do acaso. É o resultado das decisões clínicas que tomamos hoje.
E envelhecer com autonomia deve ser o verdadeiro desfecho terapêutico.
(Colaboração de Luiz Assunção, Farmacêutico Clínico CRF 23.110 SP | RQE 12595-47).
Publicado na edição 10.991, quarta, quinta e sexta-feira, 4, 5 e 6 de março de 2026 – Ano 101




