

O estrondoso sucesso de Beleza Fatal na MAX é mais uma prova irrefutável de que o gênero novela nunca morrerá. A primeira novela original da plataforma, com elenco estelar formado por nomes consagrados das tramas globais como Camila Pitanga, Giovanna Antonelli, Murilo Rosa, Herson Capri, Camila Queiroz, Júlia Stockler, Caio Blat e Marcelo Serrado, além da direção de Maria de Médicis, ex-Globo, já chegou consolidada no imaginário do público.
Mas se engana quem pensa que esta foi a primeira incursão do streaming em novela: entre 2022 e 2023, o Globoplay já havia produzido Todas as Flores, escrita por João Emanuel Carneiro, com nomes como Regina Casé, Sophie Charlotte e Leticia Colin no elenco, com repercussão muito maior do que a novela das 21h da época. Antes dela, Verdades Secretas 2 já havia estreado diretamente na plataforma. Mesmo assim, o streaming da maior emissora do país não se movimentou para estrear novas novelas em 2024 e uma já gravada há pouco mais de um ano, ‘Guerreiros do Sol’, deve estrear neste ano.
Surfando na onda das telenovelas, a Netflix também não ficou para trás. Em 2024, lançou Pedaço de Mim, assinada por Angela Chaves, também ex-Globo, e estrelada por Juliana Paes e Vladimir Brichta. A produção foi um fenômeno e conquistou o prêmio APCA de Melhor Novela do ano, quebrando a hegemonia da Globo no troféu após anos de vitórias consecutivas.
Tudo isso prova que, mesmo em tempos de novas formas de consumo, a novela ainda molda o comportamento da sociedade. Ainda que não tenha o mesmo impacto massivo dos anos 80 e 90, o gênero continua presente, capaz de cativar, emocionar e gerar discussões acaloradas. O engajamento de Beleza Fatal nas redes sociais mostra que as tramas folhetinescas ainda conseguem prender a atenção do público e movimentar debates diários.
No entanto, nada no streaming ainda se compara à força que a novela tem na TV aberta. Mesmo quando considerada um fiasco de audiência, um capítulo ruim de Mania de Você, a atual novela das 21h da Globo, atinge milhões de pessoas em todo o Brasil. É um alcance que as plataformas de streaming ainda estão longe de conquistar, mas que pode ser questão de tempo, principalmente se continuarem a atrair o público jovem – que sim, ama novela, só precisa ser instigado a assistir.
Enquanto isso, a Globo parece insistir em não enxergar essa nova realidade ou se faz de desentendida. Nos últimos anos, apostou em novelas que fracassaram em audiência, salvo algumas exceções, e agora volta a produzir tramas com mais de 200 capítulos, como é o caso da atual Garota do Momento e da próxima Êta Mundo Melhor, ambas no horário das 18h, resgatando um formato que era comum nos anos 2000. A estratégia parece ser um reflexo da necessidade de retorno financeiro, mas a que custo? Em tempos de mudanças drásticas no consumo de entretenimento, talvez fosse mais interessante reduzir a quantidade de capítulos e apostar em histórias mais ágeis e compactas, como vem fazendo o streaming – e colhendo os frutos por isso.
A novela nunca morrerá. Mas o público muda, os hábitos se transformam e as emissoras precisam acompanhar essa evolução, sob risco de ficarem para trás enquanto plataformas como MAX, Netflix e Globoplay assumem o protagonismo de um gênero que, há mais de 70 anos, continua vivo no coração dos brasileiros.
Publicado na edição 10.910, sábado a sexta-feira, 22 a 25 de março de 2025 – Ano 100