
O lançamento do Plano Safra 2025/2026, com R$ 594,4 bilhões em recursos, delineia um cenário de desafios e oportunidades para o agronegócio. Embora o volume nominal seja expressivo, o aumento das taxas de juros e uma reorientação para o custeio – com menor alocação para investimento – somam-se a um ambiente que exige ainda mais cautela e eficiência dos produtores. Nesse contexto, onde incentivos à sustentabilidade e à infraestrutura ganham relevância, a governança nas empresas agrícolas emerge como a bússola indispensável.
O agronegócio brasileiro é, sem dúvida, pilar de nossa economia e potência global. No entanto, setor tão robusto e competitivo frequentemente se depara com o custo de capital. Esse custo do crédito não apenas onera o produtor, mas também eleva o risco percebido pelas instituições financeiras, perpetuando o cenário de escassez e custo de capital.
Para romper esse ciclo, é fundamental reavaliar as métricas de risco e investimento no setor. A solução não reside apenas em subsídios ou em intervenções de mercado, mas, primordialmente, na governança do próprio produtor e das empresas do agronegócio. Uma governança robusta e transparente tem o poder de transformar a percepção de risco e, consequentemente, impactar o custo do crédito.
Quando uma instituição financeira avalia um produtor, ela busca segurança e previsibilidade. E é aqui que a governança se torna o diferencial. Uma estrutura de governança madura sinaliza profissionalismo, resiliência e visão de longo prazo. Ela demonstra que a gestão não opera no amadorismo, mas sim com planejamento estratégico, gestão de processos e cultura orientada a resultados.
Para alcançar essa confiança, alguns elementos são fundamentais, como a separação entre patrimônio particular e da operação, a existência de holdings bem definidas, e a distinção precisa dos papéis entre família, negócio e propriedade são bases para a segurança jurídica e financeira.
A maturidade da gestão também é essencial, assim como a capacidade de líderes e sócios em lidar com divergências, praticar a escuta ativa e promover a adaptação a cenários adversos, cultivando o respeito mútuo e a resolução construtiva de conflitos. Um ambiente que gera engajamento, meritocracia e senso de pertencimento, cada colaborador se sente parte da solução e atua com proatividade.
A adoção de ferramentas de gestão de risco de crédito, o operacional, a liquidez e, cada vez mais crucial, os riscos sociais, ambientais e climáticos (ESG), mais a integração de fatores como volatilidade de commodities, sustentabilidade e impacto climático na análise de indicadores, são diferenciais.
Estes elementos, quando presentes, fornecem fatos e dados concretos que permitem a melhor avaliação do risco, justificando a oferta de crédito com condições mais favoráveis, por ficar demonstrado ser parceiro mais estável e com menor probabilidade de inadimplência, mesmo em cenários de mercado voláteis.
Ir além da análise tradicional de balanço, exige investimento em conhecimento e capacitação. Isso não apenas protege os investimentos, mas também contribuem para a solidez e a sustentabilidade de todo o ecossistema por impulsionar um ciclo virtuoso: boa governança leva a menor percepção de risco, o que gera acesso a crédito mais barato, que por sua vez estimula o investimento, a inovação e a competitividade do produtor, retroalimentando a confiança do mercado.
É hora de reconhecer que a governança no agronegócio não é custo, mas investimento estratégico. Para o cluster do crédito e do investimento, é a chave para liberar todo o potencial do agro brasileiro e garantir futuro mais próspero e equitativo para todos os elos desta cadeia produtiva vital.
(Colaboração de Rodrigo Toler, advogado, mestre em Direito, Tecnologia e Desenvolvimento pelo IDP, com Especialização em Direito Digital e Agronegócio. Email: rodrigotoler@outlook.com).
Publicado na edição 10.936, quarta, quinta e sexta-feira, 16, 17 e 18 de julho de 2025 – Ano 101





