

A atual novela das nove da Globo, Três Graças, pode ser afirmada sem exagero: é a melhor produção do horário em anos. Há nela algo que há muito não se via com tamanha precisão, planejamento dos roteiristas. O texto assinado por Aguinaldo Silva, Zé Dassilva e Virgílio Silva é primoroso, afiado e rigoroso. Nada passa despercebido, não há furos narrativos, não há sobras nem atropelos. Cada ação tem consequência, cada diálogo cumpre função dramática, cada arco se encaixa no seguinte com clareza e inteligência. Isso não é acaso; isso é método.
Aguinaldo, aliás, dispensa apresentações. É dele a maior audiência da teledramaturgia brasileira nos últimos 26 anos, com Senhora do Destino, que fechou sua exibição com média geral superior a 50 pontos, feito histórico, tornando-se a novela mais assistida dos anos 2000. Quando Aguinaldo decide contar uma história, sabe exatamente aonde quer chegar.
E é justamente dentro dessa engrenagem narrativa perfeitamente calibrada que uma atuação se impõe com força singular. Em meio a um elenco de grandes intérpretes, quem rouba a cena é Grazi Massafera. Em sua primeira vilã central no horário nobre, a atriz entrega performance que une carisma, domínio técnico e maturidade artística. Grazi é boa. Mais do que isso: é uma atriz com A maiúsculo.
Arminda não poderia ser de outra intérprete. A personagem parece ter sido escrita sob medida para Grazi, e o texto afiado, irônico e venenoso quando precisa ser, encaixa-se com naturalidade absoluta em sua boca. Grazi compreende o ritmo da fala, o subtexto das pausas, o peso do olhar. Ela sabe quando avançar e, sobretudo, quando conter. E é nesse controle que sua vilã se torna ainda mais fascinante.
O grande mérito da atuação está na construção em camadas. Arminda não se revela de uma vez. Sua vilania surge aos poucos, com cuidado, com tempo, respeitando o desenvolvimento dramático da trama. Trata-se de uma vilã clássica, no melhor sentido da palavra, típica de Aguinaldo Silva, que carrega ecos de personagens icônicas como Altiva, Silvia e Nazaré Tedesco. Tudo está ali como assinatura autoral, e Grazi aproveita cada brecha para imprimir identidade própria.
Arminda rouba a cena porque é bem escrita e porque é magistralmente interpretada. Todas as sequências da vilã são construídas com precisão dramática, e Grazi faz por onde. Ela agarrou essa oportunidade com unhas e dentes, consciente do peso do papel e da vitrine que ele representa. O resultado é claro: Grazi Massafera caminha, com segurança, para entrar na galeria das grandes vilãs da teledramaturgia brasileira.
Em Três Graças, texto, direção e interpretação caminham juntos. E quando isso acontece, a novela deixa de ser apenas entretenimento e volta a ser aquilo que sempre foi em sua melhor forma: obra de dramaturgia popular feita com excelência.
Publicado na edição 10.981 Sábado a terça-feira, 24 a 27 de janeiro de 2026 – Ano 101




