Irmã Crucifixa: religiosa, nome de rua e inspiradora de obra social

José Pedro Toniosso

0
7
Acompanhada de outra religiosa passionista, Irmã Crucifixa conduzia carroça pelas ruas da cidade para arrecadar donativos da comunidade bebedourense aos abrigados do Asilo São Vicente de Paulo. Foto: Acervo do autor

Nascida na zona rural do município paranaense de Colombo em 1898, Jacomina Cavassim Lovato ingressou na vida religiosa aos 22 anos, sendo uma das quatro primeiras brasileiras que fizeram votos perpétuos pela Congregação das Irmãs Passionistas de São Paulo da Cruz, recebendo o nome de “Irmã Crucifixa das Cinco Chagas”.

Fundada em 1815, na cidade italiana de Florença, a Congregação se estabeleceu no Brasil em 1919, na cidade de São Paulo, dedicando-se inicialmente ao campo educacional e, posteriormente, à área da saúde e de atendimento a pessoas idosas e em situação de vulnerabilidade social.

Vieram para Bebedouro em atendimento ao convite do Cônego Aristides da Silveira Leite, primeiramente para o trabalho junto aos abrigados no Asilo São Vicente de Paulo, atual Recanto, inaugurado em 19 de março de 1931. Em 1933, também a convite do Cônego, assumiram o serviço de enfermagem da Santa Casa de Misericórdia e posteriormente, em 1935, assumiram a provedoria do hospital.

Entre as primeiras passionistas vindas para a cidade, depois de breve período em São Paulo e no Rio de Janeiro, Irmã Crucifixa exerceu o cargo de superiora do Asilo no período entre 1933 e 1937, retornando em 1943, mantendo-se em atividade até fevereiro de 1952. A partir de então, com saúde precária, foi transferida para a Santa Casa local, onde faleceu em 24 de agosto.

Durante o período em que atuou em Bebedouro, foi reconhecida pela dedicação aos pobres e idosos, destacando-se no difícil trabalho de arrecadação de alimentos aos asilados, percorrendo as ruas da cidade todas as manhãs a pé ou em uma charrete, onde acondicionava as doações da comunidade.

Desta forma, seu passamento causou grande consternação e houve expressiva participação nas exéquias, que incluiu missa de corpo presente na capela da Santa Casa e, também, na Igreja Matriz de São João Batista, de onde seguiu o cortejo fúnebre em direção ao cemitério municipal, com a presença das religiosas passionistas e doroteias, autoridades, representação de todas as escolas e associações, além de grande massa popular.

Na ausência de um jazigo próprio, o sepultamento ocorreu em uma sepultura simples, sem adornos, mas que, desde então, passou a ser bastante visitada, onde muitos bebedourenses dedicavam orações, velas e flores, o que resultou na ideia de se construir ali uma pequena capela. No entanto, foi somente em novembro de 1955 que teve início o movimento popular com o apoio da Gazeta de Bebedouro para levantamento de fundos com tal finalidade.

A partir de então, semanalmente, a Gazeta passou a publicar matérias sobre o progresso da campanha, citando os nomes dos doadores e respectivos valores. Sequencialmente, atendendo à proposta das passionistas, decidiu-se pela construção não de uma capela exclusiva à Irmã Crucifixa, mas sim de um jazigo dedicado às religiosas daquela congregação, cuja obra foi realizada e entregue em abril de 1957 pela empresa Cardassi e Ruzzante, ganhadora da concorrência pública.

Outra homenagem prestada à Irmã Crucifixa foi a destinação do seu nome à rua localizada na Vila São José, atual Vila Major Cícero de Carvalho, conforme Lei publicada em dezembro de 1956, promulgada pelo prefeito Francisco Martins Alvarez.

No final da mesma década, outra iniciativa faria referência à memória da religiosa, com a formação de comissão voltada para a construção da creche que levaria seu nome. Para atender a este propósito, em dezembro de 1959, ocorreu a cessão de imóvel pela Prefeitura, localizado à rua dr. Brandão Veras, no. 1250, ao lado da Santa Casa.

O lançamento da pedra fundamental aconteceu em 14 de maio de 1961 e após a finalização das obras, a inauguração deu-se em 31 de julho de 1964, quando houve a entrega da direção às irmãs passionistas, que inicialmente ficaram responsáveis pela instituição. No entanto, apesar das expectativas e em decorrência da falta de recursos materiais, a entidade não iniciou as atividades, o que ocorreria somente em abril de 1966, com a organização de nova associação civil.

Desde então, após a regularização em sua constituição e diversas reformas e adaptações na estrutura física, a “Casa da Criança Irmã Crucifixa” presta relevante trabalho social e educativo junto à comunidade bebedourense, fazendo jus àquela que inspirou sua fundação.

(Colaboração de José Pedro Toniosso, professor e historiador bebedourense,

www.bebedourohistoriaememoria.com.br).

Publicado na edição 10.979 De sábado a terça-feira, 17 a 20 de janeiro de 2026 – Ano 101