
Ao longo de tantas matérias jornalísticas em torno do falecimento do já saudoso Papa Francisco, por vezes a encíclica Laudato Sí (Louvado Seja) foi mencionada como uma manifestação relevante do Santo Padre ao longo de seu pontificado. E o que essa correspondência papal, publicada em 2015, tem a ver com esse espaço voltado ao meio ambiente e à sustentabilidade?
A referida encíclica contemplou reflexões do Santo Padre acerca do meio ambiente, da necessidade de protegê-lo e, de certa forma, da conexão entre temas ambientais e os valores da Igreja Católica. O Papa, resgatando ensinamentos de São Francisco de Assis, inicia a correspondência destacando que o santo, em um “[…] gracioso cântico, recordava-nos que a nossa casa comum se pode comparar ora a uma irmã, com quem partilhamos a existência, ora a uma boa mãe, que nos acolhe nos seus braços […]”.
A humanidade estaria, contudo, agindo como se fosse a única espécie proprietária e beneficiária de seus frutos. Grande equívoco, pois como alertou o então Pontífice: “Nada deste mundo nos é indiferente”.
As reflexões iniciais do Papa Francisco continuam atuais em seu aniversário de dez anos, e bem sintetizam alguns dos questionamentos filosóficos em torno do Direito Ambiental. Em particular, a necessidade de que todos adotem comportamentos mais benéficos ao meio ambiente para que, na máxima extensão possível, toda a coletividade se sinta beneficiada.
E, por vezes, no espectro individual, adotar uma conduta mais benéfica ao meio ambiente pode significar renunciar a algum conforto, a alguma comodidade, e isso em benefício de algo ou alguém desconhecido ou não identificável. Isso porque é muito comum na temática ambiental que comportamentos adotados em um certo local, por uma determinada população, venham a apresentar seus piores reflexos em outros locais. Há exemplos marcantes mundo afora:
A exportação de lixo (sim, países exportam e importam resíduos uns dos outros) produz cenários lamentáveis de verdadeiras montanhas de lixo em locais que certamente não foram responsáveis por sua produção, impactando povos e bens ambientais daquele local. O descarte inadequado faz com que resíduos produzidos em determinados países (identificados, por exemplo, pelo idioma em rótulos de garrafas) se acumulem aos montes em praias e litorais de outros países, atrapalhando atividades essenciais como turismo e pesca, por exemplo.
Outro exemplo recente é a reclamação formulada por países insulares perante a Corte Internacional de Justiça contra o aquecimento global. Esse aumento de temperatura, segundo os chamados “Pequenos Estados Insulares”, tem levado ao aumento dos níveis dos oceanos, o que tem, na prática, diminuído o tamanho desses países pela submersão de uma parcela de seus territórios, como se essas ilhas estivessem afundando.
Não bastasse a diminuição do tamanho desses países, a alteração da temperatura da água pode mudar a composição da fauna e flora locais, interferindo no modo de viver dessas comunidades. Imagine não encontrar mais em seu país uma determinada planta, ou não poder mais se alimentar de uma determinada espécie de peixe presente na dieta de seu povo desde os tempos ancestrais.
Tal como clamou o saudoso Papa, é de bom tom agirmos com ponderação e temperança nas nossas rotinas. Quase sempre é possível rever hábitos para consumir menos recursos naturais sem que isso impacte de forma significativa nossa qualidade de vida. Isso vale para todos nós, governos, empresas, cidadãos. E, ao assim agir, estaremos a exercitar valores comuns a diversas religiões, como solidariedade ao próximo (mesmo que ele esteja fisicamente longe), empatia, e gratidão à natureza e ao planeta por nos prover o necessário para a vida. Como disse Francisco, não devemos agir como donos da Terra, e sim irmãos, por com ela partilhar a vida, ou mesmo como filhos, pois ela nos nutre e nos acolhe como mãe.
(Colaboração de Gabriel Burjaili, bebedourense, advogado e professor).
Publicado na edição 10.934, de sábado a sexta-feira, 5 a 11 de julho de 2025 – Ano 101





