Lorrana Mousinho e a construção inteligente que torna Cláudia ainda maior em Três Graças

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Da discrição ao impacto - A construção da personagem Cláudia por Lorrana Mousinho em Três Graças é inteligente e mostra qualidade da atriz.Foto (Reprodução/TV Globo).

A atuação de Lorrana Mousinho em Três Graças é exemplo elegante de construção dramatúrgica feita no tempo certo e, sobretudo, respeitada por uma atriz que entende profundamente o jogo da narrativa televisiva.

Introduzida de forma discreta, quase invisível aos olhos mais apressados, Cláudia surge como uma simples estudante de medicina que complementa a renda trabalhando como cuidadora de Josefa, personagem vivida por Arlette Salles. Nada ali parecia pedir destaque imediato, e isso não foi acaso. O texto assinado por Aguinaldo Silva, Zé Dassilva e Virgílio Silva aposta, mais uma vez, na paciência como método: cada arco é preparado com rigor para que as revelações aconteçam no momento exato.

Aos poucos, o público percebe que Cláudia não é apenas o que aparenta. Há camadas. Há silêncios significativos. Há um olhar que observa mais do que reage. E então vem a virada decisiva: ao ouvir uma conversa comprometedora entre Arminda e Ferette, a personagem é brutalmente atropelada pelos capangas do vilão e desaparece da narrativa. É nesse ponto que Três Graças revela sua engrenagem maior, e Cláudia, sua verdadeira função dramática: ela era, desde o início, uma espiã a serviço de Rogério, personagem de Eduardo Moscovis, infiltrada na mansão para vigiar cada passo da antagonista.

Essa revelação não transforma apenas a trama; transforma a atriz em cena. A partir daí, Lorrana Mousinho entrega mudança clara e precisa de composição. O corpo muda. A postura se impõe. O olhar ganha firmeza. A Cláudia frágil, quase apagada, dá lugar a uma mulher consciente do jogo que joga, cúmplice de um plano maior, peça estratégica na engrenagem da vingança central da novela.

Essa transição não se sustenta apenas no texto. Ela acontece, sobretudo, no trabalho corporal e na inteligência cênica da atriz. Lorrana entende que personagem não se constrói só com fala: constrói-se com presença, com gesto, com figurino, com ocupação de espaço. Tudo passa a comunicar. E é exatamente aí que se reconhece uma atriz de verdade, daquelas que sabem valorizar personagens pequenos e transformá-los em essenciais sem jamais forçar protagonismo.

Em Três Graças, nada é gratuito. E ninguém está em cena sem justificativa. Lorrana Mousinho prova que pertence a esse elenco não por acaso, mas por mérito. Sua Cláudia cresce junto com a narrativa e confirma que a novela das nove da Globo vive, hoje, um de seus momentos mais inspirados em anos: texto afiado, planejamento rigoroso e intérpretes à altura da complexidade que a obra exige.

Publicado na edição 10.983 Sábado a terça-feira, 31 de janeiro a 3 de fevereiro de 2026 – Ano 101