Maconha: conhecer para avaliar

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Marcelo Bosch Benetti dos Santos 

A maconha, ou Cannabis sativa, seu nome científico, está presente desde muito cedo na história da humanidade. Teorias sugerem a Ásia Central, ao norte do Himalaia, ou mais a leste na China, como sendo o local de origem da planta. Há registros de marcas de corda de cânhamo (fibras da Cannabis) impressas em louças e vasos decorativos chineses datados de 4.000 a.C., além de um vaso de porcelana também chinês com mais de 10 mil anos de idade. Seu cultivo teve início nas primeiras civilizações da China, às margens do Rio Amarelo, cerca de 5.000 anos a.C., e o berço do uso religioso e psicoativo é atribuído à Índia. No Brasil, chegou ainda no século XVI, trazida por escravos africanos.
Entretanto, mesmo sendo parte de longa data da história da humanidade, com seu uso associado à produção de tecidos, papel, remédios, óleos e práticas religiosas, indo além da alteração da consciência, imprecisões, controvérsias e visões distorcidas a respeito da maconha ainda ocorrem, principalmente nos últimos anos, quando o debate a seu respeito ganhou força. De maneira geral, as discussões giram em torno dos efeitos psíquicos e comportamentais do uso recreativo da maconha, dos benefícios do uso medicinal e de questões envolvendo sua legalização, regulamentação e descriminalização.
Assim, tanto no Brasil como em países vizinhos e ao redor do mundo, a maconha vem sendo assunto de interesse não só por parte da medicina ou de outras especialidades da saúde, mas também de áreas como a política, o direito e as ciências sociais.
O uso recreativo da maconha consiste na busca pelos efeitos psicoativos (e geralmente transitórios) da Cannabis, como sensações de prazer e bem-estar, euforia, fluidez do pensamento, relaxamento e diminuição da ansiedade. São também comuns alteração da percepção do tempo (e do espaço), que parece transcorrer mais lentamente, e o aumento da sensibilidade perceptiva, envolvendo a visão, a audição, o tato e o paladar. Entretanto, para algumas pessoas os efeitos acabam sendo desagradáveis ou perturbadores, como o aumento da ansiedade, medo, tremor, sudorese (suor excessivo) e confusão mental (vivência conhecida como bad trip, ou “má viagem”). Os efeitos da maconha irão depender de fatores como a qualidade, a quantidade e a frequência de uso da droga, assim como as condições psicológicas e fisiológicas do indivíduo. Outros efeitos imediatos da Cannabis são: aceleração dos batimentos cardíacos, aumento do apetite, sede e vermelhidão dos olhos, além dos prejuízos cognitivos, como alteração do
nível de consciência, déficit em atenção concentrada, diminuição da capacidade de processar informações, prejuízo da memória de curto prazo e do raciocínio lógico. Afirma-se que a maior parte dos usuários de maconha não se tornam dependentes (cerca de 9%), e dentre os sintomas de abstinência estão o aumento da ansiedade, irritabilidade, impaciência e impulsividade. Em contrapartida, pode haver associação entre uso precoce de maconha e maiores chances de dependência, assim como aumento do risco de uso de drogas mais nocivas e colaboração no desencadeamento de transtornos mentais e de comportamento. A chamada “síndrome amotivacional”, ou seja, a apatia e a desmotivação que caracterizaria os usuários regulares de maconha, ainda é controversa, apesar de se observar letargia ou morosidade em alguns usuários recorrentes da droga.
Esses efeitos em grande medida se devem ao tetraidrocanabinol, ou THC, um dos principais e mais estudados componentes da maconha (dentre as mais de 400 substâncias nela presentes). O THC também pode ser utilizado para fins terapêuticos, caracterizando o uso medicinal da Cannabis, atuando, por exemplo, na diminuição dos efeitos colaterais da quimioterapia (enjoo e falta de apetite) e no tratamento de dores crônicas.
Além do THC, o canabidiol (CBD), outro componente da maconha bastante estudado, configura o uso medicinal da planta. Legalizada e regulamentada em alguns países, inclusive para uso recreativo (como no Uruguai e em parte dos Estados Unidos), no uso medicinal a maconha é utilizada também na prevenção de crises epilépticas e na redução de espasmos musculares na esclerose múltipla. Nesses casos, o THC e o CBD são comercializados através de remédios produzidos em laboratório ou através do consumo da planta in natura, usualmente inalada, com as concentrações de canabinoides definidas de acordo com as finalidades terapêuticas.
Nesse ponto, vale observar que no Brasil, o cultivo e o comércio de maconha é proibido. A única exceção ocorre no uso de medicamentos em que o canabidiol (CBD) é o principal componente da fórmula, estando seu acesso restrito à prescrição médica e em casos nos quais os tratamentos convencionais não surtem efeitos em crianças e adolescentes com epilepsia. Nesta situação, o medicamento é importado.
Por fim, vale destacar que a maconha, associada às condições físicas, psicológicas e sociofamiliares do indivíduo que dela faz uso, pode trazer sérios riscos à saúde e influenciar negativamente na vida social e ocupacional. Em especial adolescentes e jovens devem ser desencorajados a usá-la, uma vez que ainda se
encontram em pleno desenvolvimento biopsicossocial, de modo que o uso precoce além de poder interferir negativamente neste processo, pode aumentar ainda mais a intensidade e as chances do surgimento dos efeitos nocivos. Ao mesmo tempo, não se deve julgá-la por valores morais e preconceituosos, haja vista sua participação na história da humanidade e seu uso terapêutico já evidenciado para o tratamento de diferentes doenças.
(Colaboração de Marcelo Bosch Benetti dos Santos, Psicólogo, especialista em Psicologia Clínica, mestrando em Psicologia Clínica – PUC-SP).

Publicado na edição nº 9953, de 25 e 26 de fevereiro de 2016.