Marcados pelo tempo

Wagner Zaparoli

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Responda sinceramente, prezado leitor: você é dono do seu tempo ou ele é dono de você?

Vivemos fatigados pela pressão, cercados por agendas e prazos e doutrinados pelos despertadores e relógios inteligentes. Mas será que ainda sabemos o que significa viver o tempo e a vida?

 

Bem antes dos relógios

Muito antes dos relógios que hoje carregamos no pulso ou no celular, o tempo era marcado pelos ciclos naturais. Há mais de 5 mil anos, egípcios e babilônios já utilizavam calendários para organizar o plantio e prever colheitas. Baseavam-se em três grandes ciclos: o dia solar, o mês lunar e o ano solar. Observações simples, mas essenciais, que conectavam o tempo às estações e ao céu.

Com o tempo, os egípcios criaram um calendário civil com 12 meses de 30 dias, somando cinco dias extras para alinhar o ciclo anual ao movimento do Sol. Nesse modelo, o dia era dividido em 12 horas temporais, cuja duração variava conforme o verão ou o inverno. Foi um salto notável na organização da vida cotidiana.

 

Do Sol ao pêndulo

À medida que as sociedades se sofisticavam, crescia a necessidade de medir o tempo com mais precisão. Surgiram os relógios solares e de água, seguidos pela ampulheta. Todos, dependentes de elementos naturais, ainda sujeitos a imprecisões. A virada veio no século XIII, com o primeiro relógio mecânico no monastério de Dunstable, na Inglaterra, reflexo da disciplina horária dos monges.

Dois séculos depois, os relógios mecânicos se popularizavam nas torres das igrejas, e o conceito de horas fixas se firmava. Com o avanço da ciência, surgiram mostradores com minutos e segundos (no século XVII), e o mecanismo de fuso viabilizou os primeiros relógios portáteis, objetos de luxo das elites europeias.

Mas foi em 1656 que o holandês Christiann Huygens apresentou o primeiro relógio de pêndulo confiável. A precisão aumentou drasticamente: de até 15 minutos de erro por dia para apenas um minuto por semana. O pêndulo se tornou padrão global, embora ainda restrito a quem podia pagar.

 

Do bolso ao pulso

Já no século XIX, a tecnologia dos relógios começou a se democratizar. O americano Eli Terry, com apoio de investidores de Connecticut, lançou um relógio completo por apenas 15 dólares, dando início à produção em massa nos Estados Unidos. A Europa, especialmente a Suíça, ainda dominava a relojoaria, mas adotava um modelo mais conservador.

A Guerra Civil americana acelerou a disseminação dos relógios de bolso entre os soldados. Mais tarde, durante as guerras mundiais, os modelos de pulso – até então usados apenas por mulheres – foram adaptados aos homens no campo de batalha. O sucesso foi tanto que, com o fim da guerra, o relógio de pulso se tornou um acessório universal.

 

A era da precisão extrema

O século XX levou a medição do tempo a níveis impressionantes. Na década de 1930, surgiram os primeiros relógios de quartzo, que utilizavam a vibração de cristais para marcar o tempo com variação mínima, cerca de dois milésimos de segundo por dia. Em 1939, o Observatório Real já utilizava essa inovação.

Mas logo o quartzo foi superado. Em 1948, o primeiro relógio atômico foi criado nos Estados Unidos, utilizando a ressonância do átomo de césio. A precisão chegava à casa dos nanossegundos. Embora imperceptível no cotidiano, essa tecnologia é vital para aplicações científicas, sistemas de navegação e telecomunicações.

 

Escravos do tempo

O tempo, antes uma referência natural, hoje dita o ritmo de nossa vida moderna. Os relógios definem compromissos, fusos horários, agendas globais e até o funcionamento das máquinas. Em países como Japão ou Inglaterra, pontualidade é praticamente um valor moral. Em outros, como o Brasil, o tempo pode ser mais flexível, mas ainda assim, inescapável.

O fato, meu querido leitor, é que vivemos presos por relógios que criamos, e isso determina tudo, até o modo como enxergamos a vida. Na luta entre o controle e a liberdade, mal ousamos fazer uma pausa para repensar o tempo a nosso favor. Não se trata de romper com a evolução, pelo contrário, mas sim, de simplesmente resgatar o sentido profundo da nossa existência. Talvez seja a hora de cada um de nós recuperar uma relação mais consciente, harmônica e humana com o tempo. Afinal, o maior luxo é viver plenamente, sem ser escravo do tempo.

E para quem gosta de breves histórias, fica aqui uma dica sobre a jornada dos relógios no tempo https://www.youtube.com/watch?v=AyN73O2MVfg.

Publicado na edição 10.948, quarta, quinta e sexta-feira, 3, 4 e 5 de setembro de 2025 – Ano 101