

A mais nova série nacional da MAX, “Ângela Diniz: Assassinada e Condenada”, chega como um soco no estômago e um lembrete urgente de um dos capítulos mais controversos e machistas da história jurídica brasileira. A produção, que narra o emblemático assassinato da socialite Ângela Diniz por seu namorado, Doca Street, e o subsequente julgamento que a transformou em ré, é um acerto notável em sua execução dramática e técnica. Com dois dos seis episódios já disponíveis, a série se anuncia como obra de peso.
A minissérie se insere no contexto do True Crime que domina o consumo de entretenimento, como aponta o relatório True Crime Consumer Report de 2024. No entanto, em meio ao crescente volume de ficções baseadas em crimes reais e à discussão sobre a não-glamourização de criminosos, “Ângela Diniz: Assassinada e Condenada” se destaca por abraçar um capítulo trágico da história brasileira com o cuidado e a delicadeza necessários.
Baseada no conhecido e renomado podcast Praia dos Ossos, da Rádio Novelo, a produção da HBO Max, em 6 episódios, foca na trajetória de libertação de Ângela Diniz, uma mulher que, nos anos 1970, ousou viver em seus próprios termos. O roteiro enfatiza as resistências e os embates que Ângela enfrentou por suas escolhas, desde a decisão de se separar do primeiro marido até ser assassinada a quatro tiros pelo último companheiro, que não aceitou sua autonomia. A série não apenas narra o crime, mas expõe como a vítima acabou pagando o preço de tentar viver à sua maneira e, no julgamento, foi transformada em culpada pelo crime em que foi vítima.
O grande motor e diferencial da produção é, inegavelmente, a performance de Marjorie Estiano no papel-título. Mais uma vez, ela prova a atriz que é, entregando-se de corpo e alma a esta nova personagem. Sua escolha para protagonizar esta história baseada em fatos reais foi acertadíssima.
A atriz não apenas veste a pele de Ângela Diniz, a mulher de espírito livre, mas mergulha nas nuances complexas de sua trajetória. Marjorie consegue transitar com maestria entre o charme magnético da socialite e a vulnerabilidade da vítima, apresentando atuação rica em camadas que humaniza Ângela muito além dos tabloides da época. Essa entrega é o que permite ao público entender a tragédia em toda sua profundidade.
Direção impecável e execução técnica de alto nível
Se Marjorie Estiano brilha em frente às câmeras, a excelência por trás delas é mérito do diretor Andrucha Waddington. A direção é outro ponto alto, que não deixa pontas soltas e casa tudo perfeitamente.
O trabalho de Waddington garante que a série mantenha ritmo envolvente e coesão narrativa impressionante, especialmente ao tratar de um caso com tantas reviravoltas, da paixão ao crime e ao polêmico julgamento.
A fotografia é impecável, estabelecendo a atmosfera da época e contrastando o glamour da alta sociedade com a violência brutal do crime. Todas as cenas são bem enquadradas, realçando a tensão dramática e valorizando as expressões dos atores. Além disso, a direção consegue manter as atuações bem equilibradas, criando um conjunto harmônico que serve à história, sem que os coadjuvantes (ou mesmo o antagonista) ofusquem a jornada trágica de Ângela.
Com sinopse que aborda a controvérsia da legítima defesa da honra, tese que chocou o país ao inocentar o criminoso e condenar moralmente a vítima, “Ângela Diniz: Assassinada e Condenada” é um retrato histórico e social que merece ser visto. O sucesso técnico e artístico da série reforça a qualidade das produções nacionais.
A minissérie segue em exibição semanal, sempre às quintas-feiras, na HBO Max. Os primeiros dois episódios já estão disponíveis.
Publicado na edição 10.969 de quinta a terça-feira, 20 a 25 de novembro de 2025 – Ano 101




