Mentes carentes

0
470

Durante as duas décadas em que trabalhei como professor universitário em faculdades da capital paulista observei uma mudança gradual no perfil dos alunos: ao longo desses anos grande parte deles deixou de apresentar uma cultura geral que permita um debate produtivo sobre temas como sociedade, política, e tecnologia.
Se restringirmos a abrangência dessa cultura ao escopo específico da área de estudo de cada um, paradoxalmente a situação piora. Imaginem um aluno que quer aprender lógica computacional e mal consegue explicar como é feita a divisão de 2 por 5.
Talvez toda essa história lastimável tenha o seu início lá no ensino fundamental, que via de regra, é fraco quando existe. E quem seriam os responsáveis? Os alunos? Os professores? O sistema educacional? O sistema político? É, existem tantos candidatos e muitos prováveis.
Mas, para deixar de especular sobre as falhas da educação brasileira, eu cito uma pesquisa feita por Cristina Leite, doutora em educação pela Universidade de São Paulo. Ela realizou estudos observacionais sobre como as crianças pensam as noções de física e astronomia. Não foi preciso um exame minucioso para averiguar que muitas delas tinham um entendimento inadequado dos conceitos básicos apresentados.
Tentando entender as causas, Cristina Leite foi a fundo e realizou uma pesquisa específica com os professores de ciências dessas crianças, explorando algumas questões curriculares básicas de sala de aula.

A avaliação

O universo escolhido para a avaliação caracterizou-se por um pequeno número de professores da rede pública de ensino que ministrava aulas sobre o assunto há no mínimo dez anos, embora sem nenhum curso específico na área.
Os participantes foram conduzidos a uma sala repleta de barbantes pendurados no teto que se arrastavam até perto do chão e uma estante cheia de diversos objetos semelhantes a elementos astronômicos, como o Sol, os planetas, e as estrelas, e lhes foi pedido que colassem tais objetos nos barbantes de forma a construir o universo em que vivemos. Durante a sessão, perguntas conceituais foram feitas com o objetivo de completar a idéia do arcabouço montado.
Os resultados da avaliação mostraram que os professores concebiam o universo na sua forma plana (ou bidimensional), como apresentada nos livros de ciências. Além disso, 76% deles pensavam ser o Sol plano como uma pizza e sem volume. A visão da Terra, por sua vez, variava entre os professores: alguns achavam que ela era esférica, mas com um exagerado achatamento nos pólos; outros achavam que ela também era completamente achatada; outros ainda, apesar de concordarem com a sua forma esférica, não sabiam como isso era possível.
Com relação aos conceitos básicos como a existência das quatro estações do ano, alguns professores recorreram ao falso conceito de que o verão acontece quando a Terra está mais próxima do Sol e o inverno em situação oposta. Buracos negros foram confundidos com buracos na camada de ozônio, e estrelas cadentes eram estrelas que morriam (literalmente), caiam e riscavam o céu.

Enchendo as cabeças

Alguns números que envolvem a ciência têm demonstrado um avanço brasileiro perante o mundo. Na pesquisa médica, por exemplo, o desempenho do Brasil atualmente está à frente do desempenho da China, Índia, Coréia do Sul, Rússia e Turquia. Em resumo, existe alguma luz no horizonte!
Mas como podem situações tão díspares conviver em um país como o Brasil? Como pode o nosso país avançar nas estatísticas científicas e permitir professores tão analfabetos? E será que a população está participando e tomando conhecimento dessa evolução, pequena que o seja, mas concreta e positiva?
Será que não deveriam existir mais museus de ciências para as crianças e professores interagirem e trabalharem com os conceitos mal explicados dos livros? Será que os professores não deveriam ser mais bem cuidados, treinados e remunerados?
O Brasil tem passado por grandes transformações, principalmente no âmbito da justiça. Tomara essas transformações não sejam somente uma cortina de fumaça para esconder as mazelas estruturais que assolam o país. Tomara que de fato o ciclo vicioso de corrupção sistematizado nos meandros da política brasileira, tenha uma morte morrida, como dizia o poeta pernambucano João Cabral de Melo Neto. E a despeito dessa fé, jamais devemos nos esquecer do nosso papel e de nossa responsabilidade como cidadãos. Esse será um ano de eleições, um ano de oportunidades para escolhermos quem vai liderar as ações políticas no âmbito municipal. É preciso aproveitá-las muito bem se quisermos de fato continuar a ver as transformações acontecerem.

Publicado na edição nº 10021, de 11 e 12 de agosto de 2016.