Mesmo repleta de falhas, Vale Tudo atinge os sonhados 30 pontos de audiência

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Tudo corrido - Em meio às pressas narrativas, a leucemia de Afonso (Humberto Carrão) rende sequências emocionantes de Vale Tudo. Foto:(Reprodução/Tv Globo).

Vale Tudo entra em sua reta final quebrando jejum importante: os 30 pontos voltaram a dar as caras no horário nobre. Na segunda-feira (1º), a trama adaptada por Manuela Dias atingiu 29 pontos de média e 30 de pico, índices que Mania de Você, sua antecessora, nunca chegou perto de alcançar. É o melhor resultado desde Terra e Paixão, de Walcyr Carrasco, em janeiro de 2024.

O que explica essa curva ascendente? O burburinho nas redes sociais certamente pesa. Vale Tudo sempre teve uma narrativa irresistível, é novelão clássico, com personagens maiores que a vida e conflitos universais. Mesmo com mudanças questionáveis na nova versão, a espinha dorsal se mantém intacta, atraindo tanto veteranos que revisitam a história quanto novos espectadores que descobrem a trama pela primeira vez.

Apesar das críticas, Manuela Dias entrega momentos de impacto quando se concentra. A decisão de manter Leonardo (Guilherme Magon) vivo, ainda que com sequelas e sob a rejeição de Odete Roitman (Débora Bloch), foi um acerto. Na versão original de 1988, o personagem morria no acidente; aqui, o segredo amplia a dimensão cruel da vilã e adiciona tensão dramática. É um ponto em que a autora mostra seu talento para reinventar sem perder a essência.

Outro exemplo é a trama de Afonso e Solange, que sofreu mudanças importantes e imperdoáveis, mas recentemente teve uma crescente boa. Alice Wegmann e Humberto Carrão conduzem cenas emocionantes e bem dirigidas, que cumprem a função de emocionar o público. Tecnicamente, são momentos de qualidade, capazes de gerar identificação imediata e alimentar as redes com clipes compartilháveis.

Mas é justamente aí que mora o problema: falta densidade. A leucemia de Afonso, introduzida de forma abrupta, soa como estratégia para viralizar, não como um arco consistente. O diagnóstico acontece do nada: uma mancha roxa em uma semana, quimioterapia na outra. Não houve construção para o público vivenciar a dor junto ao personagem, algo que novelas como Laços de Família souberam trabalhar com tempo, sutileza e progressão.

Nesta novela de Manoel Carlos, em 2000, o público via na primeira semana da novela, Helena dizer para Camila que ela se alimentava mal. A personagem vive normalmente, e os sintomas são introduzidos com cautela e o diagnóstico vem apenas no quinto mês da novela, com muito didatismo e só se conclui, literalmente, nos últimos capítulos. Por isso a cena de Carolina Dieckmann raspando a cabeça entrou para história e por isso a novela é lembrada até hoje.

Essa pressa em Vale Tudo não é um caso isolado. Burnout de Renato, diabetes de Solange, tráfico de animais, personagem assexual, pensão alimentícia… temas relevantes foram jogados na tela e esquecidos logo em seguida. A novela atira para todos os lados, mas não aprofunda em nenhum. Fica a sensação de que o texto foi pensado para alimentar o Tik Tok, não para sustentar 180 capítulos. Vale Tudo é praticamente uma novela feita para a rede social das dancinhas virais.

Vale Tudo é um fenômeno paradoxal. Cresce em audiência, gera engajamento digital e deve fechar como sucesso se seguir crescendo seus números, mas carrega uma lista de falhas que se multiplicam capítulo a capítulo. A leucemia de Afonso, nesta reta final, é emblemática: um arco com potencial, mas executado como um desserviço.

Manuela Dias tem lampejos criativos, mas sua releitura da maior novela de todos os tempos evidencia mais fragilidades do que acertos. O saldo? Um produto que se sustenta na força indestrutível da história original e na entrega apaixonada do elenco (que já começa a demonstrar insatisfação com os desfechos dos personagens), não no equilíbrio entre texto, direção e dramaturgia.

Publicado na edição 10.949 de sábado a terça-feira, 6 a 9 de setembro de 2025 – Ano 101