

No final de 2024, o cinema nos apresentou “A Substância”, estrelado por Demi Moore. O filme narra a história de Elisabeth, uma apresentadora demitida aos 50 anos por ser considerada “velha demais”. Em crise existencial ao ser descartada pela indústria, ela descobre uma droga, a “Substância”, que promete torná-la a “melhor versão de si mesma”: mais jovem e mais bonita.
Pouco mais de um ano após o lançamento do filme, vivemos hoje uma “epidemia” de Mounjaro. Tornou-se onipresente em almoços de família, academias e rodas de amigos ouvir que alguém começou a usar a substância para emagrecer. Segundo a Anvisa, o medicamento é indicado para o tratamento de diabetes tipo 2 e obesidade, exigindo rigorosa prescrição médica devido a efeitos colaterais, como náuseas, vômitos, pancreatite aguda, alterações renais e fadiga crônica.
Embora a indicação seja para esses casos, a prática clínica e o convívio social mostram um uso estético desenfreado, baseado no desejo de alcançar a tão sonhada e valorizada magreza. Relatos de sofrimento por frustração com o corpo, insegurança, tristeza, baixa autoestima e ansiedade são comuns naqueles que buscam na caneta emagrecedora, a solução para atingir o “corpo perfeito”.
Façamos um exercício: entre na academia, selecione cinco pessoas com o “corpo dos seus sonhos”, aquele corpo escultural que gera inveja em você pois gostaria de tê-lo. Pergunte a elas se estão satisfeitas com o próprio corpo. Spoiler: a resposta provavelmente será “não”! Sempre há algo a melhorar, secar e tonificar.
Assim, questiono os leitores: qual é o preço emocional de viver em eterna insatisfação com o próprio corpo? Qual é o custo emocional de buscar alcançar um corpo inatingível? Em algum momento estaremos satisfeitos com o corpo que temos? Não seria mais libertador emocionalmente lutar para a aceitação do próprio corpo?
Ao buscar obsessivamente enquadrar-se em um padrão estético, o indivíduo torna-se preso da opinião do senso comum, onde o “tem que ser assim” dita as regras. Aceitar o próprio corpo não é conformismo ou dizer que não devemos cuidar de nossa saúde, mas sim um ato de autocuidado e libertação. Ao romper com o padrão estético, abrem-se caminhos para o bem-estar que nenhuma substância pode oferecer.
Como defendi no último artigo, somos livres para nossas escolhas, mas precisamos lidar com as consequências. Continuar escolhendo a valorização da busca incessante por um corpo ideal e inatingível é uma opção da nossa sociedade. No filme, Elizabeth precisou lidar com os efeitos de ingerir a “Substância”. Na vida real, o G1 noticiou a investigação de seis mortes por pancreatite associadas ao uso indiscriminado dessas canetas emagrecedoras, essa semana.
A pergunta que fica para os leitores é: continuaremos escolhendo o caminho do aprisionamento estético a qualquer custo, ou inventaremos um novo modo de existir, mais gentil com nossa própria imagem?
(Colaboração de Pedro Henrique Fernandes Medeiros, bebedourense, psicólogo clínico (CRP 06/217706), pela PUC-Campinas, mestrando em Psicologia Social pela UERJ. Atualmente cursa especializações lato sensu em: Psicologia Clínica na Perspectiva Fenomenológico-Existencial, IFEN, 24/26; Intervenção na Autolesão, Prevenção e Pósvenção do Suicídio,Vita Alere, 24/26; concluiu Extensão Universitária: Promoção da Saúde Mental e Prevenção do Comportamento Suicida/Violência em Contextos de Vulnerabilidade, 22/23).
Publicado na edição 10.987 Sábado a sexta-feira, 14 a 20 de fevereiro de 2026 – Ano 101




