
Durante décadas, o multilateralismo constituiu o pilar fundamental da ordem internacional contemporânea, sustentado por instituições como a ONU (Organização das Nações Unidas), a OMC (Organização Mundial do Comércio) e os acordos climáticos globais. Entretanto, o cenário geopolítico atual evidencia uma erosão progressiva desse modelo, impulsionada pelo ressurgimento de políticas protecionistas, pela fragmentação de alianças históricas e pela ascensão de lideranças que privilegiam agendas estritamente nacionais. Esse fenômeno impõe reflexões profundas em ao menos três dimensões: a reconfiguração das relações diplomáticas e dos mecanismos de governança global, os impactos sobre a coesão social e a cooperação entre povos, e as transformações no ambiente de negócios e nas cadeias produtivas internacionais.
A primeira consequência significativa do enfraquecimento multilateral reside na desarticulação dos mecanismos de governança global. Organismos internacionais, antes capazes de mediar conflitos e estabelecer normas de convivência pacífica e harmoniosa entre nações, estão perdendo progressivamente sua capacidade de atuação diante do desengajamento de grandes potências. A imposição unilateral de tarifas comerciais, a retirada de países de acordos ambientais e a paralisia de fóruns de negociação evidenciam um cenário no qual a diplomacia cede espaço à confrontação direta de interesses. Nesse contexto, a resolução de crises transnacionais, como pandemias, conflitos armados e mudanças climáticas, torna-se substancialmente mais complexa, uma vez que a ausência de coordenação coletiva reduz a eficácia das respostas e amplia a vulnerabilidade dos países com menor poder de barganha individual.
No plano social, o declínio do multilateralismo produz efeitos igualmente preocupantes. A retórica nacionalista, frequentemente associada a esse movimento, tende a fomentar a polarização interna e a hostilidade em relação ao estrangeiro, fragilizando valores como a tolerância e a solidariedade internacional. Fluxos migratórios passam a ser tratados como ameaças à cultura local e ao mercado de trabalho. Além disso, a redução da cooperação científica e educacional entre nações compromete o avanço do conhecimento e limita o acesso de populações vulneráveis a recursos essenciais, como medicamentos e tecnologias. O resultado é um mundo mais fragmentado, no qual a desigualdade entre países tende a se aprofundar e o tecido de confiança mútua, construído ao longo de gerações, deteriora-se de maneira acelerada.
Para o ambiente de negócios, as repercussões são igualmente profundas e imediatas. A substituição de regras comerciais multilaterais por acordos bilaterais ou por medidas protecionistas unilaterais gera incerteza regulatória, eleva custos operacionais e compromete a previsibilidade necessária ao planejamento estratégico das organizações. Cadeias globais de suprimentos, consolidadas ao longo de décadas de integração econômica, são forçadas a se reorganizar em processo oneroso e complexo. Empresas passam a operar em ambiente de maior risco cambial e tarifário, o que desestimula investimentos de longo prazo e reduz a eficiência alocativa dos mercados.
Nesse contexto, o enfraquecimento do multilateralismo representa não apenas uma inflexão na política internacional, mas uma transformação estrutural com desdobramentos concretos sobre a governança, a convivência entre sociedades e a dinâmica econômica mundial. Reverter essa tendência exige o reconhecimento de que os desafios contemporâneos — da crise climática à instabilidade financeira — transcendem fronteiras nacionais e demandam respostas articuladas de forma coletiva. Preservar e reformar as instituições multilaterais, adaptando-as às novas realidades de poder, permanece como imperativo para a construção de um futuro mais estável, equitativo e próspero, cenário que abre oportunidades para o Brasil e para as organizações brasileiras.
(Colaboração de José Mário Neves David, advogado, conselheiro e professor. Contato: jose@josedavid.com.br).
Publicado na edição 10.988 Sábado a terça-feira, 21 a 24 de fevereiro de 2026 – Ano 101





