
Carol Ezzel, escritora da revista Scientific American, descreve assim o suicídio de sua mãe: “Em 1994, dois dias depois de voltar de férias com a família, minha mãe, com 57 anos, apontou o revólver para o seio esquerdo e disparou, abrindo um buraco perfeito e letal no coração – e, metaforicamente, no coração da família inteira. Era mais ou menos meia-noite de um sábado de julho, mês com o mais elevado índice de suicídios do hemisfério Norte, como fiquei sabendo mais tarde”.
A perda da mãe trouxe inúmeras instabilidades à vida de Ezzel, muito embora as duas não tivessem uma convivência diária, já que Ezzel morava em outra cidade na época. Mas o que mais a atormenta até hoje, passados mais de uma década do acontecimento, é saber que ela nunca vai descobrir os motivos que levaram a sua mãe ao suplício final. Infelizmente Ezzel vai carregar a dúvida pelo resto de sua vida. E como a história normalmente se repete, pesquisadores sobre o assunto têm se concentrado em tentar responder a fatídica questão: a tendência ao suicídio é inata ou resultado do acúmulo de experiências infelizes?
Cenas como essa são mais comuns do que podemos acreditar, como mostram algumas estatísticas vindas dos Estados Unidos. Por lá a cada 18 minutos, aproximadamente, uma pessoa morre por suicídio e a cada minuto alguém tenta tirar a própria vida.
O caminho das pesquisas
Victoria Arango, do New York State Psychiatric Institute, e J. John Mann, do Columbia-Presbyterian Medical Center, são dois pesquisadores que há anos trabalham na tentativa de descobrir os caminhos que levam as pessoas ao suicídio. Eles conseguiram reunir a melhor coleção de cérebros de suicidas nos EUA, cujo número chega a 200. Associados aos cérebros existem relatórios detalhados contendo entrevistas com familiares e amigos do morto, cujos objetivos são propiciar aos pesquisadores um mapa completo do estado e espírito da pessoa antes do ato mortal.
Apesar das pesquisas estarem no seu início e caminhando vagarosamente, indícios peculiares já foram revelados. Por exemplo, pessoas que morrem por suicídio possuem alterações anatômicas e físicas em duas regiões do cérebro: no córtex pré-frontal orbital (que fica logo acima dos olhos) e no núcleo rafe dorsal do tronco cerebral. A diferença básica resume-se a uma palavra: serotonina.
O córtex pré-frontal é a região do cérebro denominada a sede das funções executivas do cérebro, onde se situa o censor interno que impede as pessoas de dizerem realmente o que pensam em situações adversas ou de agir por impulsos particularmente perigosos.
Por sua vez, a serotonina é uma molécula neurotransmissora responsável por levar um sinal de um neurônio a outro. De alguma forma essa molécula tem um poder calmante sobre o cérebro.
A particularidade que Arango e Mann descobriram em cérebros de suicidas relaciona a falta da serotonina, tanto no córtex pré-frontal, bem como no núcleo rafe dorsal. Em alguns casos pesquisados a deficiência da substância no cérebro era tão explícita que mesmo altas doses diárias de Prozac não bastavam para reverter o quadro maníaco-depressivo que levava o paciente ao suicídio.
Em 1995 Ghanshyam N. Pandey, da Universidade de Illinois, e colaboradores, divulgaram um estudo confirmando que as anormalidades do circuito de serotonina no organismo poderiam ser detectadas por simples exames de sangue. Entretanto, os estudos ainda não são totalmente conclusivos. E enquanto tais conclusões não sejam confirmadas, outras pesquisas como a de David A. Brent, do Western Psychiatric Institute and Clinic de Pittsburgh, afirmam que filhos de pessoas que tentam o suicídio têm um risco seis vezes maior de se matar do que os filhos de pais que nunca tiveram essa intenção.
Alguns números reveladores
Dentro desse cenário de ilusões e desilusões, alguns números marcantes colocam vida e morte em confronto acirrado. Alguns exemplos: o suicídio está em terceiro lugar entre as causas de morte de adolescentes entre 10 e 19 anos; quatro homens morrem por suicídio para cada mulher, mas pelo menos duas vezes mais mulheres que homens tentam o suicídio; o alcoolismo é um fator em cerca de 30% de todas as mortes por suicídio; 83% das mortes por armas de fogo em casa são resultado de suicídio; e, o número de suicídios é o dobro do número de homicídios anuais nos EUA.
A linha tênue que separa a normalidade da anormalidade comportamental muitas vezes pode não ser notada, dado que a dissimulação emerge como um instrumento muito capaz. Na dúvida, devemos procurar apoio especializado ao menos para compreendermos melhor a situação e sanar quaisquer dúvidas existentes. Afinal, com a vida não se brinca.
Publicado na edição nº 10038, de 22 e 23 de setembro de 2016.




