
As crianças nascem curiosas, submetidas a um gene dominante que as impele a enxergar o mundo como um grande ponto de interrogação. Mesmo sem estímulo aparente, assemelham-se a metralhadoras que disparam infinitas perguntas simultaneamente, e ao serem respondidas, alimentam outra infinidade delas num círculo frenético e perene.
Bem, não tão perene, pois a chegada da adolescência parece inibir sutilmente o “gene da curiosidade” e a fase adulta, para muitos, parece desligá-lo em definitivo. Uma pena que o homem perca substancialmente duas das mais belas características da criança ao envelhecer: a ingenuidade e a curiosidade.
De qualquer modo, a curiosidade que hoje é bem quista e até estimulada pela sociedade, não o era em um passado longínquo. Pelo contrário, aquele que apresentasse o mínimo de interesse pelos mistérios da natureza era tido como um pernicioso e arrogante pecador.
O lema era viver a vida sem questionamentos ou interesses significativos que maculassem a alma e levassem o homem a se distanciar do Criador. Em outras palavras, o ideal era viver como um burro com cabresto e tapa-olhos que consegue dirimir somente o curto caminho bem à frente sem nenhuma distração.
Curiosidade, a perdição do homem
Muitos dos pensadores e filósofos da Idade Média tinham a curiosidade como um grande mal para a humanidade. O romano Tertuliano dizia que refletir sobre as forças da natureza era pernicioso e condenável. Santo Agostinho entendia que todos os que examinavam os segredos da natureza “insignificantes para a nossa vida” eram escravos por vontade própria. Acreditava que a curiosidade seria, na melhor das hipóteses, inútil, e no pior dos casos, um distanciamento de Deus e da salvação da alma. Tomás de Aquino também não ficava atrás, embora tentasse fazer uma distinção entre dois termos fundamentais: o “studiositas” – esforço controlado e humilde em busca da verdade, em contraponto ao ”curiositas” – um vício desenfreado.
Já no século XVI, o humanista Erasmo de Roterdã, embora fiel ao dualismo entre o bem e o mal, tratou de pôr panos quentes nos conceitos medievais ao afirmar que a contemplação das obras divinas, com gratidão e admiração, sem a tentativa de desvendar forças desconhecidas ou mistérios da fé, era perfeitamente aceitável. Além da contemplação, trilhava-se o caminho da perdição.
São muitos os exemplos dessa tosca filosofia que parecia tomar de assalto quem quer que fosse, do grande pensador ao humilde pescador. Estavam todos tão envolvidos em preservar os mistérios da Criação que mal se davam conta da privação que se auto-incutiam. A liberdade de pensamento, a busca pelo conhecimento e a simples curiosidade pelo desconhecido eram altamente condenáveis, e quem quer que desafiasse essa restrita filosofia poderia até correr o risco de morte como bruxo ou herético.
A luz do conhecimento
Se a restrição à liberdade de pensamento perdurou por longos anos, uma velada luz começou a surgir no século XVII. Procedimentos científicos começaram a ser desenvolvidos e até exigidos, como fazia o filósofo Francis Bacon, a quem revelar o que Deus encobria jamais seria uma heresia, ou como o filósofo François Poulain de la Barre que afirmava que seria permitido conhecer tudo, até mesmo a magia negra, desde que não fosse empregada para o mal.
Um dos maiores defensores da liberdade ao conhecimento foi o filósofo inglês Thomas Hobbes, que entendia ser a curiosidade a característica fundamental que diferenciava o homem de um animal.
Mas, mesmo havendo uma forte corrente filosófica que crescia e se disseminava rapidamente a favor do conhecimento e do livre pensar, foi pelas mãos de um outro elemento que os últimos bastiões do conservadorismo cristão viram sua iminente derrocada: a tecnologia.
O telescópio de Galileu, o microscópio de Hooke e o prisma de Newton literalmente revolucionaram o pensamento renascentista, abrindo um flanco irreparável naquele que havia dominado a todos por tanto tempo, o pensamento escolástico.
Não se admitia mais a passividade de pensamento. Não se deslumbrar significava ser ignorante. E nesse torpor de novas idéias eclodiram inúmeros “gabinetes de curiosidade” que mais adiante dariam origem às academias científicas.
Estava assim estabelecido um pensamento filosófico que levaria o homem a um novo patamar cultural e moral. Estava aberta a caixa de Pandora, estava mordida a maçã e estava iluminado o caminho da evolução.
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(Colaboração de Wagner Zapparoli, Doutor em Ciências pela USP, Professor Universitário e Consultor em Tecnologia da Informação).
Publicado na edição 10.964 de sábado a terça-feira, 1º a 4 de novembro de 2025 – Ano 101




