Nós homens, realmente gostamos de mulheres?

Pedro Henrique Fernandes Medeiros

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Articulista – Pedro Medeiros, bebedourense, psicólogo clínico e novo articulista da Gazeta, passa a contribuir com reflexões sobre saúde mental, comportamento e existência a partir da psicologia fenomenológico-existencial.Foto: Arquivo pessoal.

Em outubro de 1945, em uma França devastada pelos escombros físicos, econômicos e morais da Segunda Guerra, Jean-Paul Sartre proferiu uma conferência histórica em Paris. O mundo estava apavorado consigo mesmo, reconhecendo os caminhos catastróficos que a humanidade havia escolhido, precisando lidar com as consequências dessas escolhas. Diante de uma plateia que testemunhara o horror, Sartre não ofereceu consolo, mas uma constatação: somos livres e, por isso, integralmente responsáveis pelo mundo que construímos. Para ele, justificar comportamentos por “perfil psicológico”, experiências passadas ou circunstâncias, não passa de desculpa. Cada escolha nossa é um voto sobre como a humanidade deve ser.

Mas o que a pós-guerra e Sartre têm a ver com o título deste artigo? Semana passada, deparei-me com uma triste manchete do G1: “Brasil registra recorde de feminicídios em 2025; quatro mulheres são assassinadas por dia”. Desconfortável, fui ler a matéria. Foram 1.470 casos no último ano, crescimento de 316% em dez anos. Diante desses dados, faço o sincero questionamento: Nós, homens, realmente gostamos de mulheres?

Se o “gostar” masculino, em nossa cultura, frequentemente se traduz em controle, posse, silenciamento e, nas situações extremas, em morte quando elas não se submetem ao nosso querer, precisamos admitir que nossa forma de amar está doente. Sartre diria que muitos homens vivem na má-fé: fingem-se vítimas de impulsos, do álcool ou de uma “natureza agressiva” para não assumirem a responsabilidade por suas escolhas destrutivas.

Como homem, jamais sentirei na pele o medo de uma mulher em um relacionamento abusivo ou a dificuldade de viver em uma sociedade que a trata como secundária ao homem, devendo sempre servi-lo. Mas, como ser humano, consigo sentir desprezo por esses números e a angústia de saber que nada garante que a próxima vítima não seja minha mãe, minha irmã, minhas amigas, pacientes ou futuras filhas.

A violência contra a mulher é o resultado de escolhas diárias de uma sociedade que ainda valida a superioridade masculina. Assim como Sartre questionou os franceses em 1945, questiono aos leitores: em que sociedade queremos viver? Infelizmente, estamos escolhendo este mundo onde quatro mulheres morrem por dia.

A boa notícia é que, se construímos esse modelo de sociedade, ele também pode ser destruído para que uma nova possa surgir, onde seremos educados para não perpetuar essa violência transgeracional.

Portanto, digo aos homens: se suas relações são pautadas por violências (física, psicológica, sexual e patrimonial), entenda que essa não é sua única possibilidade de existir. Procure ajuda profissional imediatamente. Às mulheres: vocês não são culpadas pela violência que sofrem. Nenhuma roupa ou comportamento justifica a agressão. Procurem redes de apoio; o canal de denúncia é o 180. Não sofram em silêncio; existem caminhos para além desse.

Sartre dizia que “precisamos inventar incessantemente nosso próprio caminho”. Que o nosso caminho, como cidadãos, seja o da recusa absoluta à violência.

(Colaboração de Pedro Henrique Fernandes Medeiros, bebedourense, psicólogo clínico (CRP 06/217706), graduado pela PUC-Campinas, iniciando mestrado em Psicologia Social pela UERJ em março de 2026. Atualmente cursa especializações lato sensu em: Psicologia Clínica na Perspectiva Fenomenológico-Existencial, IFEN, 24/26; Intervenção na Autolesão, Prevenção e Pósvenção do Suicídio,Vita Alere, 24/26; concluiu Extensão Universitária: Promoção da Saúde Mental e Prevenção do Comportamento Suicida/Violência em Contextos de Vulnerabilidade, 22/23).

Publicado na edição 10.983 Sábado a terça-feira, 31 de janeiro a 3 de fevereiro de 2026 – Ano 101