O gerente da bomba atômica

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No dia 06 de agosto de 1945, passado das oito horas da manhã, os EUA lançaram a Bomba-A sobre a cidade de Hiroshima no Japão. Dos 245 mil habitantes que lá viviam à época, 100 mil morreram e outros 100 mil ficaram feridos. Três dias depois a dose foi repetida e uma segunda bomba foi jogada em Nagasaki, provocando mais 80 mil vítimas entre mortos e feridos. Total das operações: 140 mil mortos, mais de 130 mil feridos e cinco mil órfãos, em apenas três dias.
Harry S. Truman, então presidente norte-americano, justificou a atitude dizendo que “queria ver nossos garotos de volta”. Talvez houvesse outros motivos, como vingar o ataque japonês a Pear Harbour ou demonstrar poder frente à União Soviética. Mas isso realmente não importa, pois o fato é que a guerra já estava praticamente vencida pelos aliados, e quaisquer que sejam os motivos que fizeram os EUA utilizarem tamanha brutalidade, jamais vão encontrar justificativas para os seus atos. Coadjuvando com os generais na construção do aparato explosivo, estavam alguns cientistas, dentre eles, J. Robert Oppenheimer, considerado o “pai” da bomba.

O cientista

Julius Robert Oppenheimer nasceu em 22 de abril de 1904 na cidade de Nova York. Filho de um imigrante judeu que se tornara comerciante de sucesso e de uma professora, Oppenheimer passou por uma infância privilegiada: estudou na Ethical Culture School em Manhattan, foi membro com 12 anos da Sociedade Mineralógica de Nova York e terminou o colégio em 1921, como orador da turma. Cursou química na Universidade de Harvard, mas interessou-se também pela física. Em 1927 Oppenheimer, agora vivendo na Inglaterra, recebeu o seu PhD e começou a trabalhar com a Teoria Quântica aplicada à eletrodinâmica. Em 1929 retornou aos EUA como autoridade máxima da nova física que surgia. Tornou-se professor da Universidade da Califórnia e do Califórnia Institute of Technology. Escreveu inúmeros artigos que contribuíram para a teoria do pósitron, prevista por Paul Dirac em 1930 e verificada empiricamente em 1932. Em resumo, um pesquisador brilhante e extremamente comprometido com os avanços científicos da época.

O desvio

Com o ingresso dos EUA na Segunda Guerra Mundial em 1941, Oppenheimer, que já havia começado a estudar a fissão nuclear, foi convidado a assumir o posto de diretor de um laboratório de pesquisas em Los Alamos. Alguns anos antes o governo americano havia decidido construir a bomba atômica secretamente antes que os nazistas o fizessem. Havia expectativas de que cientistas alemães estavam a caminho de consegui-lo, e se o fizessem, seria impraticável reverter os rumos da guerra e brecar a ofensiva alemã na Europa.
Oppenheimer, dadas as suas destacadas habilidades, foi convidado a dirigir o programa de desenvolvimento da bomba. De forma eficiente e comprometida coordenou cerca de 4.500 colaboradores que conseguiram em tempo recorde atingir a meta estabelecida, feito que imediatamente o faria se orgulhar e, posteriormente, a se arrepender amargamente. Ao observar que o governo americano partiria para a construção da bomba de nitrogênio, Oppenheimer fez oposição explícita ao presidente Truman, cuja reação foi drástica e imediata: “Nunca mais me tragam aqui aquele imbecil. Não foi ele quem disparou aquela bomba, eu é que fiz isso. Este tipo de choradeira me deixa doente”, declarou o presidente, numa referência explícita à atitude restritiva de Oppenheimer.
E o tempo definitivamente virou para ele. Não só seria destituído de seu posto de autoridade nacional de segurança, bem como ficaria a mercê de difamações impetradas pela imprensa popular americana por muitos anos. Em 18 de fevereiro de 1967, tomado por câncer na garganta, veio a falecer.
Até o último momento, o brilhante cientista carregou em sua consciência o peso sobre as mortes que a bomba causou. Embora não sirva como justificativa, ele não foi e nunca será personagem ímpar na utilização da ciência para fins de destruição em massa. Se ele não tivesse gerenciado o programa da bomba atômica, certamente outro o teria feito em seu lugar.
O triste nesse episódio, além das desgraças que a bomba causou, é que nem mesmo a ciência está imune ao poder dos homens, seja para o bem ou seja para o mal, irremediavelmente.
Se você tiver interesse, o livro Chuva Negra, do escritor japonês Masuji Ibuse, trata de um aspecto peculiar sofrido pelas adolescentes japonesas no pós-bomba. Vale a pena a leitura.

Publicado na edição nº 10044, de 6 e 7 de outubro de 2016.