O Governo aposenta a compostura

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Antonio Carlos Álvares da Silva

Até a segunda guerra mundial, a cultura francesa era predominante no mundo. E ela se caracterizava pela sofisticação. Tudo tinha que ser elegante e fino. A palavra francesa “finesse” tinha , que estar presente nos atos e condutas das pessoas ditas inteligentes. Bem por isso, quando muitos filmes americanos pretendiam representar a elegância e a cultura eles de passavam na França. Escritores e artistas americanos, espanhóis e outras partes da Europa, faziam de tudo para residir, ou passar grandes temporadas na França. Isso foi claramente mostrado no recente filme A ultima noite em Paris. Portugal e, por consequência o Brasil, foram muito influenciados por essa predominância francesa. Já no século 19, Eça de Queiroz, que foi embaixador em Paris, ironizava, que toda a cultura de Portugal vinha encaixotada em navios vindos da França. Aqui, a língua francesa era mais aprendida, que a inglesa. Fui educado nesse ambiente, em que se aprendia, que a “finesse” devia fazer parte da vida das pessoas. Fiz essa introdução, para explicar meu constrangimento com dois fatos agora usuais na política. Dou um exemplo do primeiro: Outro dia, em uma reunião de associações de cooperativas de agricultura orgânica, Gilberto de Carvalho, ex seminarista e membro do primeiro escalão do governo federal, saiu-se com essa: “O governo federal faz tudo pelos mais pobres. Em represália, é alvo de um monte de merda, que os caras falam.” (Estadão, 12/12/14 – A-3). Será, que o principal secretário da presidente Dilma não tinha uma maneira menos chula de expor esse simples pensamento? Poderia citar outros exemplos, mas, para muitos, a forma talvez não seja tão importante. Então, vamos à essência. Muitas pessoas estão chocadas com os escândalos de corrupção no Brasil, especialmente na Petrobrás. Nesse ponto não posso deixar de lembrar, que o PT fez campanha contra FHC acusando-o de querer privatizar a Petrobrás. No entanto, ninguém está trabalhando mais pela privatização da Petrobrás, que o governo, com essa sucessão de escândalos. Os escândalos não param de se repetir a atingem alvos novos. O pior, é que não existiu nenhuma preocupação de criar algum mecanismo novo, para esconder e tornar difícil a apuração. Parece, que tudo foi feito de forma grosseira e superficial… Corruptos e corruptores se valeram de mesma pessoa, para esconder o desvio de dinheiro e, depois, levá-lo até os destinatários escolhidos. Os recebedores do dinheiro se valiam do mesmo expediente, para justificar o aparecimento dos valores em suas contas. Abriam firmas de consultoria e davam recibos por consultas concedidas. Não tinham nenhuma originalidade. Usaram a mesma forma já usada por José Dirceu em 2007. Foi só levantar a ponta de um fio e toda a malandragem veio à tona. Corrupção sempre existiu, mas, para repeti-la, a corja acabou fazendo esse despautério de horror e grosseria. E levaram junto para o brejo da devassidão, a compostura e a elegância, que todo brasileiro do meu tempo aprendeu a admirar.

 

(Colaboração de Antonio Carlos Álvares da Silva, advogado bebedourense).

Publicado na edição nº 9787, dos dias 20, 21, 22 e 23 de dezembro de 2014.