O indivíduo compulsivo e a pressa de existir

O indivíduo compulsivo e a pressa de existir

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Articulista – Pedro Medeiros, bebedourense, psicólogo clínico e novo articulista da Gazeta, passa a contribuir com reflexões sobre saúde mental, comportamento e existência a partir da psicologia fenomenológico-existencial.Foto: Arquivo pessoal.

O indivíduo compulsivo é aquele que, tomado pelo ritmo acelerado do mundo, age sem pausa; faz, repete, acumula, muitas vezes sem saber o que o move. No excesso de tarefas, tenta calar um vazio que insiste em aparecer. Hoje, a compulsão se espalha por todos os cantos da vida: está nas relações afetivas, no trabalho, no consumo, na alimentação e até na forma como buscamos prazer ou alívio. Trabalhamos sem parar e chamamos de produtividade. Comparamos sem necessidade e chamamos de recompensa. Mantemos vínculos que nos esvaziam e chamamos de amor. Comemos sem presença e chamamos de rotina. Cuidamos do corpo como máquina e chamamos isso de saúde.

Vivemos em uma época que transformou a pressa em virtude. Ser rápido, eficiente e incansável tornou-se quase um ideal. Nesse ritmo, a ação deixa de nascer de um desejo genuíno e passa a obedecer apenas à urgência do tempo. Quando o fazer se automatiza, o sujeito se perde: perde critério, perde sentido, perde direção. Ao agir sem pausa e sem reflexão, esvaziado de significado, a pessoa se afasta da própria presença.

Para evitar o encontro com o vazio existencial, o homem moderno se ocupa sem cessar: multiplica tarefas, compromissos, metas e distrações. Entre o excesso de trabalho e o excesso de lazer surge o indivíduo compulsivo… alguém que teme o silêncio e tudo aquilo que o aproxima de si mesmo. A compulsão passa a ser a forma predominante de se relacionar com o mundo, com o outro e consigo.

Mas há outro caminho possível. Ele começa quando deixamos de reagir automaticamente e nos perguntamos, com honestidade: o que realmente me move? O que, de fato, dá sentido ao que faço? A pausa, a escuta e a presença não resolvem tudo de imediato, mas abrem espaço para compreender o sintoma. E, quando compreendemos, algo se rearranja por dentro: o sujeito reencontra o próprio ritmo, não o ritmo exigido pelo mundo, mas aquele que se ajusta ao seu modo íntimo de existir.

Do ponto de vista existencial, a compulsão pode ser entendida como uma fuga da própria liberdade. Ocupando-se sem parar, o indivíduo evita o peso da angústia, aquela mesma angústia que, como dizia Kierkegaard, revela a possibilidade de escolher e de se responsabilizar pelo próprio caminho. Heidegger lembrava que a existência autêntica só se torna possível quando deixamos de viver no modo impessoal e começamos a escutar o que nos convoca desde dentro. Assim, o vazio não é falha a ser eliminada, mas espaço de possibilidade. Quando paramos de fugir de nós mesmos, a pressa perde força, a compulsão abre espaço para a escolha, e a vida recupera sua densidade.

No fundo, existir não é correr: é assumir-se. E, nesse gesto, reencontrar a liberdade de ser e de deixar ser.

(Colaboração de Pedro Henrique Fernandes Medeiros, bebedourense, psicólogo clínico pela PUC-Campinas, mestrando em Psicologia Social pela UERJ, cursando especializações lato sensu em: Psicologia Clínica na Perspectiva Fenomenológico-Existencial, IFEN, 24/26; Intervenção na Autolesão, Prevenção e Pósvenção do Suicídio,Vita Alere, 24/26; concluiu Extensão Universitária: Promoção da Saúde Mental e Prevenção do Comportamento Suicida/Violência em Contextos de Vulnerabilidade).

Publicado na edição 10.989, quarta, quinta e sexta-feira, 25, 26 e 27 de fevereiro de 2026 – Ano 101