O lado oculto dos comprimidos: como remédios comuns podem acelerar a fragilidade do idoso

Luiz Assunção

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Dr. Luiz Antônio da Assunção, farmacêutico clínico, CRF 23.110 SP, Pós-graduado em acompanhamento farmacoterapêutico; e em gastroenterologia funcional e nutrigenômica. Foto: Divulgação

Dona Maria tem 74 anos e toma oito comprimidos por dia. Cada “prescritor” que ela visitou ao longo dos anos deixou sua contribuição: um para dormir melhor, outro para pressão, mais um para ansiedade, outro para dor.

A família se orgulha em dizer que ela “faz o tratamento direitinho”. Mas, aos poucos, perceberam que Dona Maria já não tinha a mesma memória, caía com frequência e vivia sonolenta.

Será mesmo que a idade explica tudo?

O que poucos sabem é que muitos dos comprimidos usados por idosos escondem efeitos silenciosos que se somam no corpo. É como se cada remédio depositasse um tijolinho invisível na mente e no equilíbrio do idoso, até que a pilha se torna pesada demais. Este peso tem um nome complicado: carga anticolinérgica.

Quando o remédio cobra seu preço

Os efeitos desse acúmulo aparecem de forma sutil, confundindo até profissionais de saúde:

  • a memória falha mais rápido do que deveria;
  • o equilíbrio se perde, aumentando quedas e fraturas;
  • surgem confusão mental e desorientação, muitas vezes tratadas como “demência” sem que realmente sejam;
  • boca seca, constipação e dificuldade para urinar se tornam parte da rotina.

Não raro, esses sintomas levam a novas consultas e mais remédios prescritos. É o início da cascata iatrogênica: um efeito adverso gerado por medicamentos tratados… com ainda mais medicamentos.

O silêncio que custa caro

Quantas internações poderiam ser evitadas se houvesse um olhar mais atento?

Quantas quedas poderiam ser prevenidas?

Quantas memórias de nossos pais e avós poderiam ser preservadas apenas com uma revisão criteriosa dos remédios?

 

É doloroso reconhecer, mas a verdade é que não faltam remédios — falta avaliação clínica da farmacoterapia.

O caminho da prevenção

A boa notícia é que podemos mudar essa realidade: Revisando periodicamente os medicamentos que o idoso usa; Conversando com farmacêuticos clínicos, que têm ferramentas para medir a carga anticolinérgica e propor alternativas; Envolvendo a família, para que reconheça sinais de alerta e questione quando mais um remédio for prescrito sem avaliar os já existentes.

Termino assim: Nossos idosos não precisam carregar o peso oculto dos comprimidos. O tratamento deve aliviar não aprisionar.

Um simples olhar crítico pode devolver memória, equilíbrio e qualidade de vida.

Talvez seja hora de perguntar: quem está cuidando da saúde dos nossos idosos — os remédios ou nós?

(Colaboração de Luiz Assunção, Farmacêutico Clínico, CRF : 23.110 SP – RQE : 12595-47).

Publicado na edição 10.946, de sábado a sexta-feira, 23 a 29 de agosto de 2025 – Ano 101