

No conturbado contexto político da década de 1930 surgiram novos partidos políticos em consonância com ideologias de diferentes espectros que estavam em voga na Europa, inclusive algumas de tendências mais radicais, as quais deram origem ao integralismo e ao aliancismo, sendo que ambos repercutiram em Bebedouro.
Conforme já abordado em outro artigo desta coluna, o integralismo foi um movimento político brasileiro de extrema direita lançado em 7 de outubro de 1932 pelo escritor e jornalista Plínio Salgado, com a fundação da “Ação Integralista Brasileira”.
O partido teve rápida expansão por todo o Brasil, e em Bebedouro a primeira visita de integralistas ocorreu em 11 de outubro de 1934, quando alguns jovens organizaram um encontro no Theatro Rio Branco, o que levou à criação do Núcleo local no ano seguinte.
Quanto ao aliancismo, foi um movimento de esquerda vinculado ao partido “Aliança Nacional Libertadora” – ANL, que surgiu no segundo semestre de 1934 no Rio de Janeiro, conseguindo adesões em muitas cidades brasileiras, de todas as regiões.
Em Bebedouro, antes da organização de um diretório da ANL, adeptos locais do socialismo organizaram reuniões e comícios para as eleições para deputados estaduais e federais marcadas para 14 de outubro de 1934. Na ocasião, foi indicada como candidata do Partido Socialista Brasileiro ao legislativo estadual a bebedourense Cacilda de Rezende Pulino que, no entanto, não foi eleita, sendo que seu partido recebeu na comarca apenas cem votos, em um universo de mais de quatro mil eleitores.
Em fevereiro do ano seguinte foi lançado o primeiro número do jornal “Fraternidade”, dirigido por Alberto Rheda e Caluby Delmont, que se divulgava como “um jornal do povo para o povo, precisa ser lido por todas as classes trabalhadoras”. O periódico teve circulação efêmera, rescrita a alguns meses de 1935, mas pode ser identificado como um veículo de divulgação da doutrina socialista, sendo comum a publicação de artigos de autoria e informações relacionadas à ANL, incluindo discursos e ações de Luís Carlos Prestes, principal liderança deste partido.
Na edição de 9 de junho, por exemplo, publicou integralmente na primeira página a carta de Prestes dirigida às lideranças e aos seguidores da ANL. Já na edição seguinte a primeira página foi ocupada por um manifesto dos líderes do partido intitulado “Ao povo brasileiro, pela salvação nacional! ”.
A expansão do movimento aliancista na cidade possibilitou a criação de um núcleo local, que viria a ser inaugurado no dia 30 de junho, como noticiado pela Gazeta de Bebedouro. No edição do referido dia, a “Fraternidade” estampou um convite na página principal: “O Comitê Pró Organisação do Directório da Alliança Nacional Libertadora, em Bebedouro, tem o grato prazer de convidar o povo desta e cidades vizinhas, para assistir hoje, às 19 horas, na séde da Sociedade Operário Beneficente, gentilmente cedida pela sua digna directoria, uma reunião em que tomarão parte diversos representantes de São Paulo e de outros núcleos, afim de organisar definitivamente a directoria do Núcleo local.”
No entanto, o evento não chegou a ser realizado, o que causou protestos dos aliancistas locais e da região, sendo que o Núcleo de Barretos da ANL enviou um ofício ao governo do Estado de São Paulo, do qual transcrevemos o seguinte trecho: “A Aliança Nacional Libertadora, núcleo desta cidade, protesta energicamente perante V. Exa. contra a atitude arbitrária do Delegado de Polícia de Bebedouro, impedindo a instalação do núcleo da Aliança nessa cidade no dia 30 de junho próximo passado. O inexplicável procedimento dessa trabiliaria autoridade, embaraçando com a força armada uma reunião pacífica de cidadãos o uso e goso dos direitos que lhes outorga a Constituição em vigor, não condiz com o adiantamento do nosso Estado e poderá mesmo provocar consequências cuja gravidade a ninguém é dado calcular”.
No entanto, sob a alegação de que a ANL seria uma fachada do Partido Comunista, com grande potencial de radicalização e influência popular, o presidente Getúlio Vargas determinou o fechamento do partido em 11 de julho de 1935, o que fez com que as ações fossem interrompidas e, assim como em outras localidades, houvesse a desmobilização do movimento local.
(Colaboração de José Pedro Toniosso, professor e historiador bebedourense, www.bebedourohistoriaememoria.com.br).
Publicado na edição 10.335, sábado a terça-feira, 12 a 15 de julho de 2025 – Ano 101




