

Vivemos em uma sociedade que supervaloriza o controle. A todo momento somos incentivados a manter tudo organizado: a rotina, o trabalho, o corpo, as emoções, as relações. Porém, por trás dessa busca constante por ordem, geralmente existe um aspecto menos visível: o medo da imprevisibilidade.
O comportamento controlador não surge de maneira isolada. Ele se desenvolve em um contexto cultural que tenta gerir até aquilo que é inerente à vida: o inesperado, a falha, a vulnerabilidade. Aprendemos a antecipar riscos, prever cenários e evitar qualquer possibilidade de surpresa. Nesse ambiente, controlar deixa de ser apenas uma estratégia e passa a ser um modo de funcionamento psíquico.
Contudo, quanto mais tentamos dominar todos os detalhes, mais rígidos nos tornamos. A espontaneidade diminui, os vínculos se estreitam e o outro é, muitas vezes, percebido menos como sujeito e mais como alguém que deveria corresponder ao que esperamos. Criam-se padrões internos sobre como as coisas “deveriam ser”, gerando sofrimento quando a realidade não acompanha tais expectativas.
Por trás dessa rigidez, frequentemente existe medo: medo do erro, do fracasso, da insuficiência, da perda e do descontrole. A necessidade de controlar funciona como uma defesa, uma forma de evitar o contato com experiências emocionais que parecem ameaçadoras. No entanto, essa defesa cobra um preço alto: embora prometa segurança, produz exaustão.
É nesse ponto que o paradoxo se evidencia. Quanto mais a pessoa tenta dominar o incontrolável, mais se vê aprisionada pela própria necessidade de controlar. A vida, inevitavelmente, escapa. O outro tem pensamentos, ritmos e escolhas próprias. O imprevisto faz parte da existência. E é na colisão com esses limites que o controle revela sua fragilidade e, muitas vezes, sua dor.
A sensação de estabilidade que o controle oferece é temporária e restrita. Não sustenta a complexidade da vida relacional. O outro não é extensão do eu, mas um sujeito autônomo, cuja diferença torna o encontro verdadeiramente humano.
Reconhecer isso não significa adotar uma postura caótica ou negligente, mas compreender que conviver com o incerto é parte do desenvolvimento emocional. Quando aceitamos essa realidade, abrimos espaço para a flexibilidade, para o diálogo e para um modo de relação menos defensivo e mais autêntico.
A canção “Luz Antiga”, de Nando Reis e Ana Cañas, ilustra essa ideia ao lembrar que “pra medir o amor não existe cálculo; um mais um pode não ser dois”. Há dimensões da vida que não se submetem à lógica da previsibilidade. A tentativa de enquadrá-las gera sofrimento; reconhecê-las, por outro lado, abre caminho para vínculos mais verdadeiros.
O convite clínico, portanto, é reconhecer os limites do controle. É nessa percepção que surge a possibilidade de respirar, flexibilizar e permitir que a vida aconteça sem defesas tão rígidas.
Na abertura ao imprevisível, muitas vezes encontramos não uma ameaça, mas a chance de novos sentidos, novas experiências e novas formas de estar consigo e com o outro.
(Colaboração de Pedro Henrique Fernandes Medeiros, Psicólogo Clínico CRP 06/217706, graduado pela Pontifícia Universidade Católica de Campinas (PUC-Campinas). Atendimento Online, mestrando em Psicologia Social na Universidade Estadual do Rio de Janeiro; cursa especialização lato sensu em Psicologia Clínica na Perspectiva Fenomenológico-Existencial (Instituto de Fenomenologia-Existencial do Rio de Janeiro – IFEN, 2024–2026); especialista em Intervenção na Autolesão, Prevenção e Pósvenção do Suicídio – Instituto Vita Alere).
Publicado na edição 10.994 Sábado a terça-feira, 14 a 17 de março de 2026 – Ano 101




