
No Japão, país com uma das populações mais longevas do mundo, um dado angustiante chama atenção: a cada oito dias, um idoso é morto por seu próprio cuidador. O fenômeno tem nome — care killing — e revela uma crise silenciosa, marcada pela exaustão, pelo isolamento e pela falta de suporte.
Segundo pesquisadores da Universidade de Nihon Fukushi, mais de 400 casos foram registrados em uma década. Na maioria deles, quem cuida também é familiar: filhos, cônjuges, irmãos. Pessoas que, sobrecarregadas emocional e fisicamente, perdem o controle — e muitas vezes, tiram também a própria vida após o ato.
A demência, as limitações físicas e a dependência total dos idosos são fatores presentes em quase todas essas tragédias. Mas o que está por trás disso é mais profundo: uma estrutura social que empurra o cuidado para dentro das casas, como se fosse uma responsabilidade privada — quase sempre das mulheres —, sem políticas públicas adequadas, sem apoio psicológico, sem descanso.
Essa realidade japonesa parece distante. Mas ela nos espelha.
O Brasil está envelhecendo. E rápido. Até 2050, seremos um país majoritariamente composto por pessoas com mais de 60 anos. E aí? Estamos prontos para isso?
A verdade é que ainda tratamos o envelhecimento como tabu, e o cuidado como um “problema de família”. Falamos pouco sobre quem cuida. Invisibilizamos essa pessoa. Ela não tem rede, nem tempo, nem salário. Só tem cansaço. E amor — até quando dá.
No Japão, já se testam robôs para fazer esse papel. Máquinas programadas para lembrar remédios, monitorar quedas, oferecer companhia. Pode parecer futurista. Mas também soa solitário. Robôs não cansam. Mas também não amam.
É esse o caminho que queremos seguir?
Cuidar é humano. É presença, vínculo, escuta, paciência. E quem cuida também precisa ser cuidado. A pergunta que ecoa é: quem cuida de quem cuida? Se não olharmos para isso agora, corremos o risco de repetir a mesma tragédia — silenciosa, íntima e irreparável.
O tempo de agir é antes que o futuro nos engula. Porque o futuro — já bate à porta.
(Colaboração de Bruna Momente Covielo Assunção, cursando Especialização em Gerontologia no Instituto Albert Einstein).
Publicado na edição 10.934, de sábado a sexta-feira, 5 a 11 de julho de 2025 – Ano 101





