

Vivemos em uma cultura que promete felicidade incessante, como se fosse possível existir sem dor, sem falhas e sem pausas. Sempre aparece uma nova promessa: um remédio, uma técnica, uma fórmula milagrosa para eliminar o incômodo, a tristeza, a ansiedade ou o medo. No entanto, esse refúgio tem custo alto, pois quanto mais tentamos suprimir o sofrimento, mais ele insiste em voltar.
A lógica lembra o cenário de Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley, um lugar onde todos deveriam estar bem e onde a felicidade é garantida a qualquer preço, mesmo que isso implique abrir mão da própria humanidade. De forma semelhante, hoje criamos, a cada dia, novas terapias, práticas, pílulas e aplicativos, compondo um arsenal que tenta anestesiar a dor. Ainda assim, os índices de depressão e ansiedade continuam aumentando de forma expressiva.
Atualmente, mais de 1 bilhão de pessoas no mundo vivem com transtornos mentais, segundo a Organização Mundial da Saúde, especialmente ansiedade e depressão. No Brasil, em 2024, quase meio milhão de trabalhadores se afastaram de suas funções por adoecimento psíquico, de acordo com dados do Ministério da Previdência Social.
Diante desse cenário, surge a pergunta: e se o sofrimento não fosse algo a ser eliminado, mas escutado? E se ele funcionasse como sinal, um alerta delicado e persistente apontando para aquilo que precisamos enxergar? Talvez um convite ou até mesmo um chamado para atentarmos ao que estamos evitando. A dor revela o desencontro entre o modo como vivemos e aquilo que realmente importa.
Quando deixamos de fugir e nos permitimos escuta mais profunda, o sofrimento se transforma. Ele deixa de ser um peso esmagador e pode se tornar caminho. Sofrer não significa fraqueza; expressa um existir que busca coerência entre o que se sente e quem se é.
Isso não quer dizer que o sofrimento precise ser glorificado, nem que seja a resposta definitiva para todos os dilemas. Significa reconhecer que, ao enfrentá-lo com honestidade, sem máscaras ou atalhos, abrimos espaço para que algo novo floresça.
Quando permitimos que a dor fale com sua própria voz, ela nos convida de um jeito silencioso, quase íntimo, a olhar para nós mesmos e para o mundo com mais conexão e honestidade. Há algo que se move quando escutamos sem pressa. Nesse gesto de atenção, a possibilidade de renascimento começa a surgir.
O sofrimento, aos poucos, torna-se palavra, sentido, presença. E, nesse processo lento e profundamente humano, pode abrir espaço para um início que antes não existia. Um começo que não apaga o que houve, mas que abre um novo modo de existir no mundo e de se relacionar com o sofrimento.
(Colaboração de Pedro Henrique Fernandes Medeiros, bebedourense, psicólogo clínico (CRP 06/217706), graduado pela PUC-Campinas, iniciando mestrado em Psicologia Social pela UERJ em março de 2026. Atualmente cursa especializações lato sensu em: Psicologia Clínica na Perspectiva Fenomenológico-Existencial, IFEN, 24/26; Intervenção na Autolesão, Prevenção e Pósvenção do Suicídio,Vita Alere, 24/26; concluiu Extensão Universitária: Promoção da Saúde Mental e Prevenção do Comportamento Suicida/Violência em Contextos de Vulnerabilidade, 22/23).
Publicado na edição 10.975, quarta, quinta e sexta-feira, 17, 18 e 19 de dezembro de 2025 – Ano 101




