Os raides automobilísticos na década de 1920

José Pedro Toniosso

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No automóvel Ford, os excursionistas Alfredo Azevedo Silva e João Villanova recebem do secretário geral da Associação Permanente das Estradas de Rodagem, os votos de boa viagem. Fonte: “A Vida Doméstica”. Acervo Digital da Biblioteca Nacional.

Embora os primeiros automóveis tenham aportado no Brasil nas últimas décadas do século XIX, foi no início do século seguinte que houve o desenvolvimento de uma cultura automobilística, que resultou na gradativa popularização dos veículos motorizados junto à sociedade.

Um dos indicadores deste processo foi a criação do Automóvel Clube do Brasil em 1907 e, no ano seguinte, do Automóvel Clube de São Paulo, instituições que reuniam os proprietários de veículos, então importados e de alto custo, acessíveis somente aos membros da elite.

Em 1917 ocorreu um marco no processo de expansão do automobilismo, com a realização da “Exposição Industrial” na capital paulista, no recém-inaugurado “Palácio das Indústrias”, onde foram apresentados alguns dos ícones da modernização tecnológica, sendo o automóvel um dos principais representantes.

No mesmo ano ocorreu também o “1º Congresso Estadual de Estradas de Rodagem”, evento que ia ao encontro da política de incremento do transporte rodoviário promovida pelo prefeito da capital paulista Washington Luís (1914-1919), política que ele daria continuidade à frente do governo estadual (1920-1924) e da presidência da República (1926-1930), ficando conhecido pelo lema “governar é abrir estradas”.

Em 1923, o mesmo Palácio das Indústrias sediou a “1ª Exposição Automobilística de São Paulo”, evento que se repetiu por mais três vezes naquela década, visando divulgar o uso do automóvel e a importância das estradas de rodagem. Foram apresentados estandes das várias marcas de automóveis comercializadas em São Paulo, de autopeças, lubrificantes, baterias e outros tipos de veículos motorizados.

Foi neste contexto que começaram ser realizados os primeiros “raides automobilísticos” pelo interior paulista, com apoio do governo ou da iniciativa privada. Em Bebedouro, sob o título “Raid Automobilístico”, o “Jornal de Bebedouro” noticiou na edição de 24 de agosto de 1920: “O sr. cap. Alfredo de Azevedo Silva, honrado commerciante nesta praça, e o sr. João Villanova, digno agente dos automóveis ‘Ford’, em Jaboticabal, emprehenderam no dia 20 um importante raid de automóvel desta cidade a São Paulo, partindo daqui às 5 horas da manhã em um voituirelle Ford. […] Hontem mesmo, às 4 horas da tarde, chegaram os destemidos excursionistas na bella Paulicéa. Foi um ‘raid’ arrojado e que felizmente se realisou muito bem, sem incidente desagradável.”

Sob o título “Ford Touring Club”, a excursão foi noticiada também pela revista “A Vida Moderna”, publicada na capital paulista, que dedicou duas páginas ao evento, incluindo o trajeto detalhado e informando sobre o êxito do percurso que tivera mais de 30 horas de viagem.

Outro raid foi realizado nos primeiros dias de novembro de 1924, desta vez fazendo o percurso São Paulo – Ribeirão Preto – São Paulo, passando por várias cidades do interior paulista, inclusive Bebedouro. Organizado pela firma ‘Cássio Muniz & Cia.”, representante das marcas Cadillac e Oldsmobile em São Paulo, foi considerado bastante arrojado, pois além de percorrer mais de mil quilômetros, incluindo vários trechos inóspitos, utilizou exclusivamente a 3ª velocidade.

Conforme noticiou o jornal paulista “A Gazeta” na edição de 8 de novembro, depois de percorrer a primeira etapa, de São Paulo a Ribeirão Preto, o automóvel Oldsmobile de 18 H.P., conduzido por Justino Niero, seguiu rumo a Bebedouro. Antes passou por Tayuva e Monte Alto para ‘satisfazer a curiosidade do público’, tendo que enfrentar uma estrada “feita para bois e não para automóveis, mesmo assim, mais uma vez, o Oldsmobile triumphou”. Na sequência, o raid prosseguiu até Araraquara e depois seguiu de volta para a capital.

Finalizado, o sucesso foi publicado na primeira página da edição de 10 de novembro de “O Estado de São Paulo”, sob o título “O sensacional ‘raid’ do Oldsmobile, em terceira velocidade, pelo interior do Estado”. Entre as informações apresentadas, um certificado lavrado em cartório e assinado pelo prefeito Antônio Alves de Toledo, relatando a passagem do veículo por Bebedouro.

Atendendo as expectativas, a firma patrocinadora informou que em cinco meses vendera 247 unidades do Oldsmobile, indicado como “absolutamente insubstituível entre todos os de sua classe”.

(Colaboração de José Pedro Toniosso, professor e historiador bebedourense www.bebedourohistoriaememoria.com.br).

Publicado na edição 10.858, de sábado a terça-feira, 20 a 23 de julho de 2024 – Ano 100