Pequenas mudanças, grandes revoluções

Pequenas mudanças, grandes revoluções

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No início da pré-história o homem utilizava a natureza de forma moderada e superficial. Consumia apenas o que conseguia comer na hora; bebia dos rios como os outros animais e gerava um lixo insignificante, absorvido rapidamente pela natureza. Vivia completamente integrado a ela, em equilíbrio perfeito.

Com o passar do tempo o homem dominou o fogo, desenvolveu o processo de conservação dos alimentos e aprimorou a produção em massa. Naturalmente substituiu a sua característica de caçador/coletor pela de produtor, seus hábitos de consumo foram adaptados e sua relação com a natureza foi sensivelmente alterada: de mero elemento, passou a dominá-la.

 

Do uso à exploração

Foi nessa virada de contexto que o homem iniciou um novo pensamento de vida, abandonando a ideia de viver um dia após o outro. Previu, planejou e arquitetou os passos adiante; contemplou a idéia de progresso aliada ao conforto e lazer; desenvolveu a ciência e aprimorou a tecnologia, o que lhe permitiu evoluir de um estado quase animalesco nas cavernas, ao estado civilizável nas grandes metrópoles.

Esse processo de transformação, produção e consumo, explicitamente marcado pelo domínio da agricultura, exacerbou os limites do tempo e ao invés de se estabilizar, nunca deixou de acelerar. Afinal, a cada novo dia nascem milhares de novos seres e a evolução não pode parar. Nesse ritmo, em 2050 seremos 10 bilhões de habitantes.

Quem mais tem se ressentido com essa aceleração é a natureza. Se no início desse processo de exploração ela se mostrava infinita, agora já é visível a sua agonia. E os números não escondem a realidade. Somente durante o século XX a população mundial cresceu oito vezes e a produção industrial 100 vezes, o que elevou o consumo de energia em cerca de 80 vezes. Mantidas as estatísticas, até meados desse século precisaremos de mais três planetas para termos exatamente as mesmas condições de vida de hoje.

 

O consumismo efervescente

Se a tônica de vida do homem pré-histórico era consumir para sobreviver, hoje podemos dizer que consumimos para viver melhor. Evidentemente que o consumo é limitado ao poder aquisitivo de cada um. Por exemplo, em países subdesenvolvidos como Brasil, somente uma parcela da população consegue de fato se alimentar razoavelmente, ter à disposição transporte particular, possuir tecnologia de computação e morar condignamente.

Por outro lado, com o alto poder aquisitivo, o povo americano consome água, alimentos, energia, produtos e serviços básicos como nenhum outro. Se toda a população do mundo fosse formada somente por americanos, hoje já seriam necessários quatro planetas Terra para repor os produtos consumidos.

Isso significa que as sociedades, sejam elas pobres ou ricas, ainda não despertaram para a relação entre o consumo e os recursos naturais disponíveis. Se há dinheiro, consome-se. Se não há, não se consome e ponto.

Ajudadas pelo marketing das grandes corporações e das redes sociais, as pessoas são bombardeadas diariamente com apelos consumistas muitas vezes desnecessários. Cativantes e convincentes, a propaganda induz a se comprar muito, o que de fato ocorre sempre. Troca-se de relógio todo ano, troca-se de carro a cada novo modelo, troca-se de roupa a cada estação e assim esse troca-troca vai alimentando o eterno e desenfreado processo de consumo. O que não serve mais vai para o lixo.

 

Usando a inteligência

Como seres inteligentes que somos, conseguimos fazer verdadeiras revoluções em alguns milhares de anos. Dominamos o fogo, o ar e a água; criamos a tecnologia e melhoramos significativamente nossa prevenção às doenças; mudamos radicalmente nossos hábitos, sempre em busca do progresso incondicional.

Parece-nos, agora, que devemos fazer uma pausa e repensar nossa jornada na Terra. Ela é uma só e os seus recursos finitos. Quem não sabe disso, não é?

Sabemos também que a população não vai parar de crescer e que devemos conciliar esse crescimento ao que nos resta de recursos naturais.

Certamente algumas atitudes bem simples do cotidiano poderiam ser o início de uma grande virada. Por exemplo, escovar os dentes com a torneira fechada; deixar o carro na garagem; apagar as luzes dos cômodos não usados e desligar a TV se não estiver assistindo; utilizar a vassoura ao invés da água; consumir frutas e alimentos da região e da estação; e, principalmente, usar até gastar. Não nos parece tão difícil nos adaptarmos a uma vida mais simples e minimalista, não é mesmo? Precisamos apenas ter um pouquinho de vontade e persistência, pois as pequenas mudanças provocam grandes revoluções. Que tal ser inteligente, chique e consciente, dando o primeiro passo?

E para o querido leitor que chegou até aqui, segue um breve documentário sobre a histórica das coisas e os impactos do consumo. Não perca!

https://www.youtube.com/watch?v=fywliXXm55g

 

(Colaboração de Wagner Zapparoli, Doutor em Ciências pela USP, Professor Universitário e Consultor em Tecnologia da Informação).

Publicado na edição 10.991, quarta, quinta e sexta-feira, 4, 5 e 6 de março de 2026 – Ano 101