
Antonio Carlos Álvares da Silva
De vez em quando, me lembro de histórias do Bebedouro antigo. Com o passar do tempo, a memória fica mais fraca e muitas histórias perdem a sequência e se tornam meros episódios esparsos. Muitas já contei em artigos anteriores. Com o passar do tempo, corro o risco de repetição. Elas me foram contadas, há mais de 50 anos. Nem mesmo sei, se eram verdadeiras. Feita essa ressalva, vou contar dois episódios de uma história do tempo do colonato em fazenda de Bebedouro. Para quem não sabe, a cultura do café, antigamente, era feita sob o regime do colonato. O fazendeiro contratava famílias, para cultivar o café. Elas passavam a morar na fazenda em casas próximas, que formavam uma colônia. Os moradores eram chamados de colonos. Formavam minicidades, sob o comando do fazendeiro, ou de um administrador, que orientavam o cultivo feito pelos colonos. Uma família, com 2 ou 3 filhos cultivava até 5 mil pés de café. Ela recebia uma porcentagem do café colhido nesses pés. Quando a colheita era boa e o preço estava alto, muitas vezes, os colonos conseguiam comprar uma área, em região de terras mais baratas e se tornavam fazendeiros. Um deles, Jeremias Lunardeli, comprou terras virgens no Paraná e , com o tempo, se transformou no maior produtor de café do mundo. Essa forma de parceria agrícola desapareceu, porque advogados e juízes, sem senso de realidade, passaram a entender que os colonos eram empregados, com direitos trabalhistas. Por isso, os contratos de colonato não eram prorrogados e os colonos mudaram para a cidade, transformando-se nos atuais “bóias frias”. Em Bebedouro, uma das fazendas, que tinha uma das maiores colônias, era a Fazenda Aparecida, situada no caminho para Taiaçu. Seu dono morava em São Paulo e a fazenda tinha um gerente, além do administrador. Era um homem muito grande. Salvo engano se chamava Oliveiros. Ele andava sempre com um grande revólver na cintura. Pelo tamanho e pelo revólver impunha grande respeito. O administrador se chamava “Seu Nenê” e era quem tinha contato mais direto com os colonos. Esse contato era necessário, para evitar desentendimentos entre os colonos. Naquela época, muitas colonos eram italianos recém chegados e pela deficiência da linguagem aconteciam mal entendidos. Dou um exemplo: Um italiano, com uns 3 meses de Brasil, foi perguntado por um outro colono, como se chamava sua filha, uma moçona exuberante. O italiano respondeu: “O nome dela é Rosa, mas, aqui na colônia, todo mundo chama ela de “biscatom”. Por aí se vê, como sempre precisava um jeito de lidar com esses mal entendidos. O outro caso, que sempre me lembro, foi o seguinte: Certa vez, o administrador, “seu Nenê” veio avisar, que um colono, apelidado de “Negrão” estava dormindo na serraria da fazenda. A serraria era um local de acesso muito restrito, porque a madeira ali armazenada era muito valiosa e sempre havia risco de incêndio. Seu Oliveiros foi peremptório: “ Expulse ele de lá Seu Nenê”. Seu Nenê, então, argumentou: “Esse Negrão é um homem muito perigoso, seu Oliveiros. Ele é amarrado pelo rabo. Seu Oliveiros, esse Negrão, sai do mato, pra cagar na estrada!” Em resposta, seu Oliveiros retrucou, batendo com a mão no coldre do revólver 38: “Olha aqui, para ele seu Nenê! Olha o que está esperando esse Negrão. Vai sossegado!” Um minuto depois, seu Nenê passou correndo, com o Negrão atrás, empunhando uma faca enorme. Seu Nenê suplicava: “Atire Seu Oliveiros, atire!” Foi então, que seu Oliveiros gritou: “Corre seu Nenê. Corre, porque esse Negrão não vale uma bala!” A sorte foi, que o Negrão ainda sonolento, não conseguiu alcançar seu Nenê, que se trancou no almoxarifado. E assim, o incidente se encerrou, sem consequência. Só ficou esse episódio na minha lembrança.
(Colaboração de Antonio Carlos Álvares da Silva, advogado bebedourense).




