Poderia ser diferente?

José Renato Nalini

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Pesquisas levadas a efeito por organismos internacionais mostram que o futuro de nossa juventude não é róseo e dourado como diziam as poesias do século passado. Ao contrário, as perspectivas são pessimistas. Projeções alarmantes para um cenário em que nada se fizer, sobre o amanhã dos adolescentes de hoje.

O maior problema é o das emergências climáticas. Quando adultos, os jovens passarão toda a sua existência em um planeta onde a temperatura média anual global será, constantemente, 0,5º C mais alta do que a dos anos anteriores.

Isso afetará a saúde de maneira imediata, seja pelos fenômenos extremos, seja de forma crônica. Aqui, levando à insegurança alimentar e a transtornos mentais. Há evidências científicas de que a poluição afeta negativamente a cognição e a saúde respiratória.

Como eles são “nativos digitais”, permanecem horas manuseando as telinhas, são vítimas dos transtornos mentais, atualmente a principal causa de perda de anos de vida saudáveis. Experiências importantes para o desenvolvimento social e emocional dos adolescentes acontecem mais online do que na vida real.

Quase quinhentos milhões de adolescentes viverão com obesidade ou sobrepeso já em 2030. Metade dos dois bilhões de adolescentes no mundo viverá em países afetados por doenças transmissíveis e crônicas e um excesso de lesões. Milhões de anos de vida saudável dos adolescentes serão perdidos com transtornos mentais ou suicídios. Além disso, estarão expostos a níveis de instabilidade econômica e política, ausentes de nossa História desde a segunda guerra mundial.

Daí a urgência e a imprescindibilidade do Triplo Dividendo: investir na saúde do adolescente é benefício não só para ele, jovem de hoje, mas para o adulto em que se tornará e também para a geração de crianças das quais ele se tornará pai. A cada dólar investido na saúde de adolescentes, o retorno será de, no mínimo, dez dólares.

Estarão todos os governos – e as respectivas sociedades civis – atentos a tal cenário? E o que você está fazendo para cobrá-los?

Leão ecológico

Muitos cristãos ambientalistas ficaram preocupados com a morte de Francisco, o papa ecológico tão amigo da natureza, assim como foi o pobrezinho de Assis, que a chamava “irmã”. Autor de vários textos sobre o ambiente e o dever cristão de preservar o patrimônio natural, há dez anos produziu a fabulosa Encíclica “Laudato Si”, uma ode tutelar do Jardim Terrestre reservado ao desenvolvimento da aventura humana.

Como se portará, em relação ao aquecimento global, o Papa Leão XIV?

Tudo indica a continuidade da atuação pontifícia em favor do sofrido acervo de recursos naturais. O Papa exerceu o seu magistério no Peru, cuja nacionalidade adotou, mesmo nascendo norte-americano.

Conviveu com a pobreza que é a vítima preferencial dos fenômenos extremos. Esteve com os flagelados inúmeras vezes. Por isso, em sua primeira homilia, colocou-se a favor da humanidade: “Se a pedra angular é Cristo, Pedro deve apascentar o rebanho sem nunca ceder à tentação de ser um líder solitário ou um chefe colocado acima dos outros, tornando-se dominador das pessoas que lhe foram confiadas”.

Lamentando a partida do antecessor, criticou o sistema econômico que “exporá os recursos da Terra e marginaliza os mais pobres”. Admitiu estar sentindo a presença espiritual de Francisco. Há mesmo quem afirme que a carreira meteórica de Robert Prevost sinaliza que o Papa Francisco o preparara rumo à Santa Sé.

Se ele pretende “ir ao encontro das interrogações, das inquietações e dos desafios de hoje”, sem dúvida será outro Papa Verde ou Papa Ecológico, pois o maior desafio já enfrentado pela humanidade advém do uso excessivo de combustíveis fósseis, do desmatamento, da devastação, da poluição desenfreada. Tudo o que gera a ocorrência, cada vez mais frequente e mais intensa, dos fenômenos extremos que matam e prejudicam prioritariamente os mais carentes.

Os ambientalistas já detectaram que a sua eleição foi acertada. Ele já se manifestou publicamente pela preservação do meio ambiente e defendeu iniciativas de sustentabilidade implementadas por seu antecessor. Por sinal que, em novembro, então como Prefeito do Dicastério para os Bispos, ao abordar a crise ambiental, afirmou que era “hora de passar das palavras à ação”. Aguardamos, reverentemente, Papa Leão XIV.

(Colaboração de José Renato Nalini, reitor da Uniregistral, docente da Pós-graduação da Uninove e Secretário-Executivo das Mudanças Climáticas de São Paulo).

Publicado na edição 10.942, quarta, quinta e sexta-feira, 6, 7 e 8 de agosto de 2025 – Ano 101