

Em 1989, o Brasil inteiro se calou. Era sexta-feira, 6 de janeiro, quando Vale Tudo chegou ao seu clímax com a pergunta que ecoaria por décadas: “Quem matou Odete Roitman?”. O país parou. Nenhum streaming, rede social ou spoiler: apenas milhões de brasileiros hipnotizados diante da TV, esperando o desfecho de um dos maiores mistérios da teledramaturgia.
A vilã interpretada por Beatriz Segall foi assassinada em uma das cenas mais impactantes da história da televisão. Na revelação, Leila, vivida por Cássia Kiss, assumia o posto de assassina e eternizava o momento em que a arte ultrapassou o entretenimento, tornando-se memória coletiva.
O remake que perdeu o rumo
Trinta e seis anos depois, o remake de Vale Tudo, assinado por Manuela Dias e dirigido por Paulo Silvestrini, tenta reviver o mesmo impacto. Mas o resultado, exibido na segunda-feira (6), mostra que nostalgia sem propósito é apenas repetição sem alma.
Apesar de alcançar expressivos 31 pontos de audiência, com picos de 32, a nova versão falha justamente onde deveria brilhar: na construção da tensão e no respeito à originalidade.
A sequência do assassinato, ambientada no Copacabana Palace, o hotel mais luxuoso e conhecido do país, beira o inverossímil. Uma série de personagens entra e sai do espaço que, com certeza, tem uma segurança de alto nível, com arma na bolsa, sem controle, sem sentido, numa colagem confusa de planos e cortes. O clímax, que deveria gelar o público, termina morno. A cena do tiro parece mal costurada, apressada, jogada na edição como quem tenta salvar o capítulo na última hora.
Direção falha, roteiro desastroso
O problema não é apenas o texto. É a soma de uma direção preguiçosa e um roteiro equivocado. Manuela Dias já havia desfigurado o espírito da obra de Gilberto Braga, Leonor Bassères e Aguinaldo Silva, e agora confirma: este Vale Tudo foi tudo, menos um remake.
A autora, que poderia ter se inspirado na essência da história, ética, ambição e poder, preferiu reescrever uma novela sem propósito, tirando da trama seu pulso moral e sua crítica social.
Se a direção de Silvestrini entrega a estética da pressa, Manuela entrega o conteúdo do descuido. Falta orquestração. Falta grandeza. Falta Brasil.
A redenção de Débora Bloch
No meio do caos, Débora Bloch resiste. Sua Odete Roitman é o que resta de digno no remake. A atriz carrega nas costas o peso de uma personagem icônica e, ainda assim, entrega elegância e força dramática. Ela segura o rojão, tira leite de pedra e prova que talento, quando há, é maior do que qualquer direção displicente.
O rumor que beira o absurdo
Como se não bastasse, rumores apontam que Odete pode estar viva, numa reviravolta forçada que reescreveria o maior assassinato da teledramaturgia.
Se isso se confirmar, será a assinatura final de que Manuela Dias transformou a maior novela de todos os tempos em uma paródia de si mesma. O que era para ser homenagem virou deturpação.
O último capítulo, previsto para 17 de outubro, promete respostas. Mas a verdade é que pouca esperança resta. Vale Tudo de 1989 fez história. O de 2025, infelizmente, apenas a repete, e mal.
Vale Tudo (2025) não é um remake. É um equívoco embalado em nostalgia. Um erro de direção, de tom e de intenção. Quando a história pede reverência, Manuela Dias entrega arrogância. Quando o público pede emoção, Paulo Silvestrini entrega pressa.
E assim, Vale Tudo nos prova, com ironia amarga, que pior do que ver a morte de Odete Roitman é assistir à morte da maior novela de todos os tempos. Com isso, a pergunta que fica é: Quem matou Vale Tudo? Certamente, a revelação desta cena, seria composta por vários personagens assumindo o crime, tal qual o de Ágata La Selva em ‘Terra e Paixão’, de Walcyr Carrasco. São vários os culpados: quem teve a ideia do remake, quem assinou embaixo, a autora, a direção e com certeza uma lista interminável de culpados.
Publicado na edição 10.959 de sábado a terça-feira, 11 a 14 de outubro de 2025 – Ano 101




