

O uso de medicamentos é uma das ferramentas mais importantes da medicina moderna. Eles curam, controlam, aliviam, previnem. Mas quando usados de forma indiscriminada, sem critérios técnicos ou sem acompanhamento adequado, os mesmos medicamentos podem se tornar vilões — para o paciente e para o sistema de saúde como um todo.
Hoje, vivemos uma verdadeira epidemia silenciosa: o uso irracional de medicamentos. Automedicação, tratamentos prolongados sem revisão, interações medicamentosas, duplicidades, erros na prescrição, falta de adesão ao tratamento. São muitos os caminhos para o uso inadequado — e todos têm um custo, tanto humano quanto financeiro.
Estudos da Organização Mundial da Saúde apontam que mais da metade dos medicamentos são usados de forma errada. E isso contribui diretamente para internações evitáveis, agravamento de doenças, reações adversas e até mortes. O impacto no SUS e nos planos de saúde privados é gigantesco. Medicamentos mal utilizados representam desperdício de recursos públicos e aumento da sobrecarga dos serviços.
Diante disso, racionalizar o uso de medicamentos não é uma opção. É uma necessidade urgente. E isso não significa simplesmente cortar remédios, mas sim avaliar com critérios técnicos se o tratamento é necessário, seguro, eficaz e adequado ao perfil de cada paciente. Esse é o verdadeiro sentido da racionalização.
O profissional farmacêutico tem papel estratégico nesse cenário. Atuando na revisão de tratamentos, na orientação ao paciente, na conciliação medicamentosa e na promoção do uso consciente, ele contribui para melhores resultados clínicos e para a sustentabilidade do sistema. A presença do farmacêutico no cuidado contínuo, dentro das farmácias, consultórios e unidades de saúde, precisa ser valorizada e ampliada.
Mais do que nunca, o Brasil precisa repensar a forma como lida com os medicamentos. Não existe sistema de saúde forte sem uso racional de fármacos. Precisamos promover educação em saúde, fortalecer protocolos baseados em evidências e garantir acompanhamento contínuo dos pacientes em tratamento — principalmente os idosos e aqueles com múltiplas doenças crônicas.
Racionalizar o uso de medicamentos é, portanto, um ato de cuidado, de economia e de respeito à vida. E pode ser uma das chaves para recuperar e fortalecer o nosso sistema de saúde.
(Colaboração de Luiz Antonio da Assunção – Farmacêutico Bioquímico, CRF 23.110 SP, especialista em acompanhamento farmacoterapêutico).
Publicado na edição 10.913, quarta, quinta e sexta-feira, 2, 3 e 4 de abril de 2025 – Ano 100