Remake de Vale Tudo despedaça clássico com trama rasa e vale mudar de canal

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Trama rasa - João Vicente de Castro vive Renato no remake de Vale Tudo; personagem enfrenta crise de Burnout em abordagem rasa e mal desenvolvida na trama das 21h. Foto: Globo/ Marcos Serra Lima.

Mais uma vez, a crítica negativa recai sobre Vale Tudo, atual novela das nove da Globo. E, infelizmente, não há como evitar as comparações com a versão original de 1988, mesmo reconhecendo que o contexto histórico e a linguagem televisiva mudaram. O problema é que, diferente de uma releitura atualizada, o remake assinado por Manuela Dias parece uma caricatura rasa e desestruturada da obra-prima criada por Gilberto Braga, Aguinaldo Silva e Leonor Bassères.

O que se vê no ar é uma novela capenga, desnutrida e, muitas vezes, incompreensível. E o espanto cresce quando lembramos que a mesma Manuela Dias foi responsável por textos potentes como Ligações Perigosas, Justiça e Amor de Mãe. Onde está a autora dos diálogos lapidados, da estrutura cuidadosa e das emoções bem construídas?

Em Vale Tudo, Manuela parece perdida. Os rumos dos personagens são questionáveis e, embora a autora tente trazer pautas sociais contemporâneas, tudo é tratado com superficialidade. Um exemplo recente é a tentativa de abordar a síndrome de Burnout. O personagem Renato, dono da agência de conteúdo, interpretado por João Vicente de Castro, teve uma crise após jornada intensa de trabalho. Até aí, a escolha parece coerente. O problema é que o tema surgiu sem qualquer construção narrativa. O público foi jogado dentro do drama sem contexto, sem envolvimento. Pior: a escolha de Renato como vítima da crise soa menos crível do que se tivesse recaído sobre Solange, funcionária que a novela já mostrou abdicando da vida pessoal pelo trabalho. O potencial dramático existia, mas a falta de desenvolvimento transformou um tema sério em cena decorativa.

E esse é o maior pecado da novela: a rasidade. Tudo é raso. Tudo é apressado. Nada tem densidade ou organicidade. O público sente falta do tempo necessário para se emocionar, compreender ou até mesmo se indignar, elementos fundamentais em qualquer boa novela.

Como se não bastasse o texto enfraquecido, a direção de Paulo Silvestrini contribui negativamente. A falta de ritmo, de impacto estético e de coesão narrativa só acentua o abismo entre o que Vale Tudo poderia ser e o que de fato se tornou.

O elenco é competente, muitas vezes excelente, mas está refém de um casamento fracassado entre texto e direção. E por mais que o talento salve cenas isoladas, não é suficiente para sustentar a novela que deveria, acima de tudo, nos fazer refletir sobre o Brasil e sua eterna pergunta: vale a pena ser honesto?

Em 2025, infelizmente, a resposta que o público está recebendo é: vale mudar de canal.

Publicado na edição 10.931, de quinta a sexta-feira, 19 a 27 de junho de 2025 – Ano 101