Repensando a nossa jornada

Wagner Zaparoli

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No início da pré-história, o ser humano utilizava os recursos naturais de forma simples e limitada. Coletava folhas, frutas e caçava apenas o suficiente para se alimentar, bebia água dos rios como os demais animais e gerava volume de resíduos praticamente irrelevante, facilmente absorvido pelo meio ambiente. Vivia em harmonia com a natureza, num equilíbrio espontâneo e essencial.

Com o passar do tempo, o domínio do fogo, o desenvolvimento de técnicas de conservação de alimentos e o surgimento da produção em maior escala transformaram profundamente essa relação. A figura do caçador-coletor deu lugar ao produtor. Os hábitos de consumo se adaptaram e o vínculo com a natureza passou de integração para controle.

Do uso à exploração

Essa transição marcou uma nova forma de pensar e viver. A vida deixou de ser guiada apenas pelo presente imediato e passou a incluir planejamento, previsões e metas. O progresso passou a ser visto como um ideal a ser perseguido, atrelado ao conforto e ao lazer. A ciência avançou, a tecnologia se desenvolveu e a humanidade evoluiu, saindo das cavernas rumo às cidades complexas da era moderna.

Esse processo, alavancado principalmente pela agricultura e depois pela industrialização, trouxe ganhos extraordinários, mas também acelerou os impactos sobre o planeta. A população mundial ultrapassou 8 bilhões em 2022 e as estimativas apontam que poderemos chegar a cerca de 9,7 bilhões em 2050. Essa expansão, combinada à busca constante por desenvolvimento, tem imposto um ritmo de consumo que desafia os limites do planeta. A natureza, que antes parecia abundante e resiliente, agora mostra sinais evidentes de esgotamento. Apenas no século XX, a produção industrial cresceu cerca de 100 vezes, e o consumo de energia, mais de 80 vezes. Se mantivermos os padrões atuais, em meados deste século, seriam necessários quase três planetas para sustentar o estilo de vida atual.

O consumismo efervescente

Se antes o consumo era uma necessidade de sobrevivência, hoje é frequentemente associado à busca por conforto, bem-estar e status. Naturalmente, esse consumo é condicionado ao poder aquisitivo de cada sociedade. Em países como o Brasil, ainda convivemos com desigualdades marcantes: parte significativa da população enfrenta dificuldades de acesso a alimentação adequada, transporte eficiente, moradia digna e tecnologias básicas.

Em contrapartida, em países com alto poder de consumo, como os Estados Unidos, a demanda por água, energia, alimentos e bens de consumo é muito superior à média global. Se toda a população mundial adotasse o mesmo padrão de consumo médio dos norte-americanos, precisaríamos de mais de quatro planetas Terra para repor os recursos utilizados.

Esses padrões indicam que ainda há descompasso entre o consumo e a consciência sobre os recursos disponíveis. Em muitos casos, consumir tornou-se sinônimo de status ou prazer imediato, e não de necessidade. Estimuladas pela mídia e pela publicidade, as pessoas são constantemente incentivadas a comprar mais, mesmo sem necessidade real. Troca-se o relógio anualmente, o carro a cada modelo novo, as roupas a cada estação, e o que não serve mais, vira lixo. A ideia de “usar até gastar”, ensinada por gerações passadas, parece cada vez mais distante. O ritmo atual favorece o uso descartável, onde “mais” é quase sempre visto como “melhor”.

Usando a cabeça

Como seres racionais, somos capazes de transformar o mundo e já o fizemos inúmeras vezes. Domamos o fogo, desbravamos os continentes, conquistamos o espaço, criamos tecnologias inimagináveis. Mas agora, talvez seja o momento de redirecionar esse poder criativo.

A Terra é única. Seus recursos são limitados. E, diante do crescimento populacional contínuo, é urgente pensar em formas mais sustentáveis de viver. Pequenas atitudes no cotidiano podem gerar grandes mudanças: fechar a torneira ao escovar os dentes, optar por caronas ou bicicleta em vez do carro, apagar luzes e desligar aparelhos quando não estiverem em uso, usar a vassoura no lugar da mangueira, dar preferência a alimentos da estação e da região e, principalmente, valorizar os bens até o fim de sua vida útil.

Esses hábitos devem ser incentivados desde a infância, ensinados em casa e nas escolas como parte essencial da formação cidadã. O consumo consciente não significa abrir mão do conforto ou do progresso, mas usá-los com responsabilidade. Afinal, progresso de verdade é aquele que se sustenta no tempo, para todos!

Publicado na edição 10.942, quarta, quinta e sexta-feira, 6, 7 e 8 de agosto de 2025 – Ano 101