Sabemos julgar nosso semelhante? Qual critério devemos usar? I. Kant explica

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Julio Cesar Sampaio

“Não devemos julgar os méritos de um homem pelas suas boas qualidades, e sim pelo uso que delas faz”. La Rochefoucauld , François

Para iniciarmos tal arguição devemos, pois, apontar uma questão pertinente à resposta a ser, ulteriormente dada: como é que o sujeito cognoscente entra em contato com o objeto cognoscendo e cognoscível? Por meios dos sentidos e do intelecto – ou por meio do coração e sentimentos? (…).
Kant, assim, asseverou…
Ele é hoje em dia, o ponto de partida das mais poderosas e controvertidas ideologias científico-filosóficas que se digladiam em torno do conteúdo das duas obras máximas que esse célebre mestre nos legou, a “Kritik der reinen Vernunft” e a “Kritik der praktischen Vernunft”. Não obstante, o que ele chama “reine Vernunft” (razão pura) é o intelecto analítico que serve de matéria-prima fornecida pelos sentidos para arquitetar o seu mundo científico, subestruturado pelo princípio da causalidade interfenomenal. O que ele entende pela “praktischen Vernunft” (razão prática) é a faculdade intuitiva do nosso ser, em semelhança sutil a o “couer” de Pascal, o “Gefuehl” de Schleiermacher, a “émotion” de Rousseau, o “élan vital” de Bergson, ou seja, algo parecido com a consciência dos moralistas e a “fé” dos livros sacros da humanidade. Kant é um exemplo típico de como o mais agudo intelectualismo pode ir de mãos dadas com o mais alto misticismo. Pela “razão pura”, baseada nos dados empíricos dos sentidos, adquire o homem noção do mundo externo, fenomenal, concreto, individual, finito, relativo, e isto é “ciência”; pela “razão prática”, entra o homem em contato com o mundo interno, numenal, abstrato, universal, infinito, absoluto, e isto é “sapiência” ou sabedoria, no mais alto sentido do termo.
Tempo e espaço como categorias sensitivas, e causalidade como categoria intelectiva – isto são, para o célebre pensador prussiano, inabaláveis postulados a priori, pré-analíticos, e não conclusões ou demonstrações a posteriori, pós-analíticos. Hipoteticamente, seria dizer que os sentidos e o intelecto são como os refletores ou espelhos de fatos externos; são entidades estáticas, receptivas, e não dinâmicas, criadoras, seu oposto. A “razão prática”, ou consciência (coração) não atua como simples refletor ou espelho estático-receptivo, veiculando fatos externos; atua como uma potência dinâmico-criadora. A ciência brota de fatos objetivos – a consciência trata de valores subjetivos. Aquela opera no âmbito do mundo impessoal, das coisas inconscientes – esta atua nas profundezas do mundo pessoal, dos seres conscientes e livres.
O imperativo categórico kantiano, antes de tudo, não vem de fora do homem; não é alguma imposição legal, política, militar, física; nem é um dogma eclesiástico, sectário. O imperativo categórico vem de dentro do homem, não do seu Ego personal (físico-mental), mas do seu Eu individual, que é o refletor da Realidade universal (espiritual), das profundezas da sua razão prática, do coração, da consciência. Para Kant sua norma precípua e suprema de ética era a consciência, eco humano de uma voz divina – a voz do meu Eu universal ético: TU DEVES!
A filosofia de Kant só pode ser entendida sobre a base geral da “racionalidade do universo”. Não há ciência, filosofia ou religião sem a admissão de um postulado pré-analítico, de uma realidade imediatamente evidente e intuitiva em si mesma (…).
Em suma, se você quer, pode e, por conseguinte, deve fazer algo, FAÇA!

 

(Colaboração de Julio Cesar Sampaio, Licenciado em Filosofia com pós-graduação no ensino de filosofia).