São Benedito: a construção da capela do santo do povo pelo próprio povo

José Pedro Toniosso

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As primeiras informações sobre a construção de uma pequena capela dedicada a São Benedito, em Bebedouro, remetem à década de 1910, quando um grupo de devotos se reuniu para viabilizar a obra. Destacou-se neste empenho, o antigo morador local, João da Cruz, pertencente à comunidade negra e que percorria as ruas e área rural para angariar recursos.

Na década seguinte, os fiéis católicos decidiram edificar um templo maior, para atender ao crescente número de devotos. Desta forma, foi organizada no ano de 1923, uma Comissão encarregada pela construção, da qual faziam parte, entre outros, Norberto de Castro, Valentim Goulart, Henrique Teixeira de Carvalho, José Jorge Gonçalves e Anna Dorothéa de Castro.

A principal forma de angariar recursos era a promoção de festas com a realização de vários leilões, sempre prestigiados pela comunidade. Tal sucesso era comentado nas notas publicadas pela imprensa local, como em novembro de 1923: “Sob a direção dos respectivos leiloeiros, sr. José Jorge Gonçalves, honrado negociante nesta praça, e a exma. Sra. D. Anna Dorothéa de Castro, digna esposa do nosso amigo prof. Norberto de Castro, tem se realizado todos os domingos esplendidos e animados leilões de prendas em benefício das obras em construcção da egreja de S. Benedicto. Os leilões, que são sempre abrilhantados pela apreciada banda Democrata, se têm realizado na Praça Ruy Barbosa. Tem sido extraordinária a concorrência do povo e a arrematação de prendas. A egreja vae ficar um prédio magnifico, grande e obedece a uma belíssima planta, devendo ficar um edifício importante. É, pois, uma obra que merece o apoio dos religiosos.”

Nas semanas seguintes, foram publicadas várias notas nos jornais locais informando a continuidade das festas em louvor ao Santo, nomeando diferentes festeiros, como Henrique Teixeira de Carvalho, o farmacêutico Benedicto da Silveira Cruz, Valentina Chubba, Victorino Gonçalves, Abel Silva e esposa, Maria Silva, entre outros.

Em cada publicação sempre era solicitado o apelo ao povo para que colaborasse, participando da festa ou fazendo a doação de prendas para os leilões, reforçando também qual seria a destinação dos recursos.

Além da participação nas quermesses, a comunidade também fazia doação de valores em espécie, de acordo com suas possibilidades. Observa-se nas listas publicadas na imprensa, que as contribuições eram de pequeno valor, o que denota serem pessoas mais simples, muitas delas moradoras das adjacências da praça em que o templo estava sendo construído. Não eram pessoas pertencentes às famílias mais abastadas, de fazendeiros, comerciantes e políticos, que comumente estavam presentes nas listas das obras da Igreja Matriz, por exemplo.

Nomes como Manoel Nascimento, José Maria Perdigão, Manoel da Encarnação, Manoel Costa, Francisco Marques, Jose Carneiro, Manoel Baptista Lourro, Joaquim Lopes, José Maria Cordasio, Isaias Binarde Payo, Manoel Gomes, Evaristo Tarelho, Ernesto Carvalho, Manoel Jacyntho de Carvalho, Antonio Torres, Felix Ojoes Pereira, Gabriel Lourenço Rozs, Juventino Ponsiano, Manoel Fernandes Frajuca, Adelino de Almeida, Joaquim Clemente, João Torres, Manoel Batatas, Antonio Batatas, João Lontre, Divio Fonta, José Bastos, José Silvestre, Cladimo Baptista, Alminho Francisco, Joaquim F. Mello, José Augusto e Manoel Perdigão, que fizeram doações de valores entre 10 e 50 réis.

Por outro lado, foi registrada também a chegada via capital da República, na época, o Rio de Janeiro, de uma “bela imagem de São Benedicto” que fora encomendada na Europa, pelo Cel. Alexandre Pulino e que dela faria presente à respectiva capela, cumprindo assim uma promessa que fizera. De acordo com a notícia, “a nova imagem é bem-acabado trabalho artístico, esculpturado em “carton-pierre” e mede de altura um metro e 10 centímetros”.

A inauguração oficial da Capela ocorreu no dia 1º de janeiro de 1936, quando foi regularmente aberta e entregue ao culto, com a realização de uma missa solene em honra ao Santo, seguida de outros festejos. Nas primeiras décadas uma comissão de senhoras moradoras próximas ao templo ficou responsável pela direção do mesmo.
Em 1960, com a criação da Paróquia de Nossa Senhora Aparecida, a Capela passou a pertencer à sua jurisdição, sendo que nos primeiros anos, enquanto era construída a Igreja que iria sediar a nova Paróquia, todas as missas, batismos e casamentos foram realizadas em São Benedito. Posteriormente, o templo passou por diversas reformas, sendo que em uma das últimas foram instaladas grades no entorno da construção.

(Colaboração de José Pedro Toniosso, professor e historiador bebedourense).

Publicado na edição 10.733 – De sábado a terça-feira, 11 a 14 de fevereiro de 2023