
A alta velocidade que o mundo moderno nos tem imposto chega às vezes à beira da insanidade. Corremos tanto para dar conta do trabalho cotidiano que raramente conseguimos fazê-lo com a devida atenção. Navegamos frequentemente pela superfície, funcionando como autômatos, estimulados por um ciclo vicioso que nos leva sempre a buscar o trabalho seguinte.
O resultado desse eterno frenesi não poderia ser pior para a nossa saúde. Depressão, hipertensão e doenças cardiovasculares, entre outros, são apenas alguns dos males que começam a nos afligir sem que percebamos, até o momento em que nosso organismo entra em colapso. Aí somos obrigados a fazer uma pausa, comumente rápida, para começarmos tudo de novo.
Nesse redemoinho da vida moderna um dos aspectos relevantes que tem preocupado principalmente o governo no cenário da saúde pública é a nociva epidemia de sobrepeso que tem se alastrado sobre a população mundial. Para se ter ideia, de acordo com a Universidade de Washington, nos Estados Unidos, 2,1 bilhões de pessoas apresentam sobrepeso, o que equivale a quase 30% da população mundial. Nações desenvolvidas como os Estados Unidos, Reino Unido e Austrália ainda são os campeões, apresentando um índice superior a 60% da população maiores de 20 anos acima do peso.
Outro aspecto que se destaca nesse cenário desastroso trata da obesidade infantil. Durante a primeira década do século 21 o nível de obesidade entre as crianças no mundo aumentou cerca de 50%, afetando quase igualmente meninos e meninas.
O Brasil não foge muito à regra. Quase metade da população está acima do peso recomendado para a idade e altura, e entre os adolescentes o índice triplicou na última década: passou de 4% para 13%.
Descobrindo a receita da liberdade
Ana Dâmaso, professora da Universidade Federal de São Paulo, coordenou há alguns anos um trabalho interdisciplinar sobre a obesidade de jovens brasileiros entre 14 e 19 anos, cuja ideia era mostrar que a perda de peso gradativa ao longo do tempo era mais eficaz do que a perda volumosa em curto espaço de tempo na manutenção do correto IMC (índice de massa corpórea).
Para tanto, Dâmaso reuniu pesquisadores de diversas especialidades, entre eles, médicos, nutricionistas, psicólogos, educadores físicos e fisioterapeutas, para acompanhar mais de 70 adolescentes com sobrepeso durante um ano, aplicando-lhes ações em frentes diferenciadas que pudessem garantir o equilíbrio e a manutenção da perda de peso durante esse período.
Resumidamente, as frentes contempladas foram: (1) avaliações médicas mensais, com exames de sangue e ultrassonografia; (2) acompanhamento psicológico para identificar e controlar a depressão, a ansiedade ou a compulsão alimentar (variáveis consideradas como principais barreiras para a perda de peso); (3) execução de três sessões semanais de uma hora de exercícios físicos aeróbicos e de musculação para promover a queima da gordura (propuseram também caminhadas sempre que possível fora das sessões para ajudar a queima); (4) apresentação de palestras semanais de nutricionistas – muitos jovens queriam se alimentar melhor, mas não sabiam como.
Várias frentes no contra-ataque
Embora alguns jovens tenham abandonado o acompanhamento durante o período de realização da pesquisa, principalmente por não enxergarem mudanças significativas no início do processo, a pesquisa ao seu final conseguiu mostrar que atacar o sobrepeso através de várias frentes interdisciplinares pode ser muito mais efetivo do que somente atacá-lo com dietas milagrosas ou com medicamentos populares.
Mostrou também que a chave para o sucesso reside principalmente na mudança de hábitos. Sem ela provavelmente a perda de peso vai ser mais um evento passageiro nas agendas da vida moderna.
Publicado na edição nº 9922, dos dias 3 e 4 de dezembro de 2015.




