Taís Araújo engole o remake de “Vale Tudo” e transforma cena clássica em espetáculo, apesar dos incontáveis problemas da novela

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Atuação arrebatadora - No capítulo mais intenso até agora de 'Vale Tudo', Raquel (Taís Araújo) confronta Maria de Fátima (Bella Campos) e protagoniza a icônica cena em que a mãe rasga o vestido de noiva da filha. Foto: Reprodução/Globo.

A atual novela das 21h enfrenta problemas em praticamente todos os seus setores. Desde a estreia, “Vale Tudo” tem demonstrado dificuldades em justificar sua existência enquanto remake de uma das maiores obras já produzidas na dramaturgia brasileira. O principal problema segue sendo a direção de Paulo Silvestrini, que não parece ter encontrado o tom da novela, sem unidade narrativa. Soma-se a isso um roteiro repleto de furos, reinterpretações equivocadas e falta de coesão dramática, assinado por Manuela Dias, que, ao que parece, também perdeu de vista o coração da história original.

Claro, comparar o remake com o original é injusto por natureza. São contextos diferentes, públicos diferentes, tempos diferentes. Mas quando a obra original é Vale Tudo, considerada por muitos (e com razão) a melhor novela já feita no Brasil, é impossível não estabelecer o paralelo, ainda mais quando o que se vê na tela é uma disparidade gritante de qualidade. A comparação não é apenas inevitável: ela é sufocante. O remake simplesmente não consegue sustentar o próprio peso.

Apesar disso, a novela alcançou esta semana o seu ponto mais alto: o clímax da história. Maria de Fátima (Bella Campos) finalmente se casa com Afonso (Humberto Carrão) e aplica seu golpe, enquanto Raquel (Taís Araújo) alcança a riqueza por mérito próprio. A chamada de divulgação da Globo, foi impactante, talvez uma das melhores já feitas pela emissora nos últimos anos e quem assistiu, certamente foi fisgado.

E o capítulo de segunda-feira (7) entregou o que prometeu. Foi ao ar a esperadíssima cena da mãe rasgando o vestido de noiva da filha, sequência imortalizada por Regina Duarte e Gloria Pires em 1988. E aqui, sim, o remake justificou sua existência, graças a uma única pessoa: Taís Araújo.

Desde a primeira cena, Taís conduziu a narrativa com força e verdade. O capítulo foi dela. Primeiro, unindo as peças e descobrindo as armações da filha. Depois, desmascarando Maria de Fátima em uma sequência longa, intensa, marcada por uma atuação visceral. Seguiu-se a cena no aeroporto, com Ivan (Renato Góes), e finalmente, o embate no dia da prova do vestido de noiva com o desabafo de Raquel e o rasgar do vestido. O último bloco inteiro foi praticamente um monólogo de Taís, com pouquíssimas intervenções dos demais personagens. E que monólogo. Há tempos uma novela não entregava uma cena tão longa e tão bem interpretada em TV aberta.

Taís não atuou, ela incorporou. Transformou o estúdio em palco e resgatou, com dignidade, o espírito da original. E mais do que isso: imprimiu seu próprio tom. A cena é quase idêntica à versão de 1988, mas o mérito aqui é da atriz que não se limitou a copiar, mas deu uma nova leitura, poderosa, emocional e autêntica. Taís foi maior que a direção, maior que o roteiro, maior que a novela. Foi monumental.

Bella Campos não comprometeu. Sua Maria de Fátima, apesar de pouco aprofundada, foi coerente com o que a atriz vem entregando desde o início. Mas é inegável que ao lado de Taís Araújo, tudo o mais desaparece. Ela engoliu a cena , e por extensão, engoliu a novela.

Publicado na edição 10.335, sábado a terça-feira, 12 a 15 de julho de 2025 – Ano 101