Tom na Fazenda é potência cênica do início ao fim

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Elenco de peso - Tom na Fazenda entrega atuações potentes e emocionantes em montagem premiada internacionalmente.Foto: instagram oficial Tom na Fazenda.

O ano era 2023 quando tive oportunidade de me sentar em uma cadeira de teatro, em Ribeirão Preto, para assistir Tom na Fazenda, no Teatro Municipal da cidade. Dois anos depois, vivi a mesma experiência, na mesma cidade, desta vez no tradicional Teatro Pedro II. Casa cheia novamente e o impacto foi exatamente o mesmo. Ver pela segunda vez não diminui nada: o brilhantismo em cena de Armando Babaioff é extraordinário. A carga dramática que ele imprime ao personagem é tão visceral que te fisga como se fosse a primeira vez.

A adaptação brasileira do texto de Michel Marc Bouchard é tão bem feita, e a atuação tão primorosa e cheia de camadas, que mesmo conhecendo a história, seus rumos e seu desfecho, você se vê novamente impactado. No final, a emoção transborda. Tom na Fazenda é o retrato vivo do que é fazer bom teatro: é razão para qualquer pessoa entender por que ama essa arte, por que ama estar diante de um palco, por que ama apoiar a cultura.

Assistir a Tom na Fazenda é testemunhar que o teatro, em sua forma mais pura, ainda é insubstituível. Não há tela, streaming ou tecnologia que consiga reproduzir a energia, a respiração e a entrega que acontecem diante dos olhos do público. A peça é prova viva de que, mesmo em tempos de consumo rápido e disperso, a arte ao vivo continua sendo um encontro único e transformador entre artista e plateia.

Não à toa, o espetáculo acumula reconhecimento internacional, tendo sido premiado em cinco países diferentes e aclamado por plateias no Brasil e no exterior, com público superior a 95 mil pessoas. Cada montagem, cada apresentação, carrega a mesma intensidade e qualidade que justificam seu lugar de destaque no cenário teatral contemporâneo.

Além de Babaioff, o elenco formado por Denise Del Vecchio, Iano Salomão e Camila Nhary sustenta, com igual vigor, o peso emocional da narrativa. Del Vecchio imprime profundidade e precisão às suas falas, Salomão entrega atuação intensa e multifacetada que dialoga de forma brilhante com Babaioff, enquanto Nhary traz sutileza e força na medida certa, completando o conjunto de interpretações que elevam a montagem ao patamar de excelência.

A peça conduz com habilidade, equilíbrio delicado entre o drama trágico e a comédia. O humor, aqui, é um respiro necessário dentro de história tão pesada, violenta e dolorosa. Esse contraste dá fôlego ao espectador e intensifica o impacto das cenas mais densas.

Impossível sair do teatro sem refletir sobre si mesmo e sobre o fato de que o simples ato de amar ainda é motivo de dor para tantas pessoas LGBTQIAPN+. Tom na Fazenda não conquistou prêmios à toa. Não mantém sua circulação pelo Brasil por acaso. Está em cartaz porque é arte pura, teatro em sua essência mais genuína e entrega absoluta de atuação.

Publicado na edição 10.944, de sábado a terça-feira, 16 a 19 de agosto de 2025 – Ano 101