
Marcelo Bosch Benetti dos Santos
Os “transtornos de personalidade” consistem em categorias diagnósticas pertencentes ao campo da psicopatologia em geral e da psiquiatria em particular. A Classificação Internacional das Doenças, em sua décima e mais recente edição (CID-10 / 1993), estabelece oito transtornos específicos de personalidade, a saber: o transtorno de personalidade (TP) paranoide, o TP esquizoide, o TP antissocial, o TP emocionalmente instável, que por sua vez se subdivide em tipo impulsivo e tipo borderline (limítrofe), o TP histriônica, o TP anancástica (ou obsessivo-compulsiva), o TP ansiosa (ou de evitação) e o TP dependente. A Associação Americana de Psiquiatria, através de seu Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais, em sua quinta e também mais recente edição (DSM-5 / 2014), comtempla mais duas categorias diagnósticas para os transtornos de personalidade, além das mencionadas: o TP esquizotípica e o TP narcisista.
As características gerais dos transtornos de personalidade podem ser assim descritas:
• Um padrão de comportamento marcantemente desviante das expectativas socioculturais nas quais o indivíduo está inserido. Tais comportamentos se apresentam em ao menos duas das seguintes áreas: cognição (maneiras de perceber ou interpretar a si mesmo, o outro e a realidade), afetividade (qualidade, intensidade e frequência da resposta emocional), relacionamento interpessoal e controle dos impulsos;
• O padrão de comportamento se mostra muito pouco variável, sendo generalizado para diferentes situações e diferentes pessoas;
• O padrão de comportamento é persistente ao longo do tempo e usualmente se inicia na adolescência ou no início da vida adulta;
• Os comportamentos estereotipados produzem importante sofrimento para o indivíduo e/ou se tornam fontes de prejuízos sociais e ocupacionais/profissionais;
• Tal rigidez comportamental não é melhor explicada por outros problemas mentais ou de comportamento, pelo uso de substâncias como drogas ou medicações específicas nem por outras condições médicas.
Apesar de tais descrições diagnósticas serem largamente utilizadas por muitos clínicos, estas estão sujeitas a algumas críticas. Exemplos consistem na imprecisão em alguns dos critérios utilizados para o diagnóstico e o fato de comumente haver importantes dificuldades, na ação diagnóstica, em se optar entre um ou outro TP.
Nesse último caso, a dificuldade de precisar um determinado TP em detrimento de outro é corroborada pelo fato de haver grupos que reúnem transtornos de personalidade específicos, dada as semelhanças entre eles.
Além disso, ter como uma das definições de um TP um padrão de comportamento persistente e pouco influenciável, que se faz presente em diferentes circunstâncias e que se inicia na adolescência ou no começo da vida adulta, tendo suas raízes na infância, não caberia como uma boa definição de personalidade?
À parte estas ponderações, tem-se que um dos problemas centrais do indivíduo que apresenta um transtorno de personalidade encontra-se nos relacionamentos interpessoais. Estas pessoas apresentam grandes dificuldades em se relacionar de maneira genuína e assertiva, de maneira que a relação com o outro acaba se tornando comumente palco de manipulação, exercício de controle, hostilidade, impulsividade, indiferença afetiva e até mesmo uma relação de pouco apreço.
Na psicoterapia, é sabido que o paciente, sem exceção, reproduz com e sobre o terapeuta sua maneira usual de se relacionar com os outros. Ao invés, por exemplo, de falar a respeito de uma lembrança, de algum acontecimento ou de uma fantasia, em alguma medida ocorrem atuações na relação com o terapeuta. Ou seja, ele é convocado a participar da narrativa do paciente não só como ouvinte e interlocutor, mas como alguém que faz parte de sua trama de relações e de seus problemas. Nesse sentido, o terapeuta acaba sendo confundido com os personagens nos quais o paciente interage em sua vida, podendo, com isso, ser alvo de manipulação, de amor, de raiva, hostilidade, fazer as vias de um rival ou, ao contrário, de um amigo ou cúmplice.
A esta condição não resta ao terapeuta, em um primeiro momento, outra coisa que acolher o paciente em suas repetições, necessidades e dificuldades e em aceitá-lo incondicionalmente. Além disso, o terapeuta deve estar preparado ou minimamente atento para não reagir emocionalmente às atuações do paciente, de modo que tal conduta irá apenas retroalimentar suas dificuldades e, com isso, distanciá-lo ainda mais da compreensão de seu sofrimento, e, portanto, das possibilidades de mudança.
Assim, não se tornar reativo às atuações do paciente consiste em uma estratégia na qual aumentam as chances delas perderem sua força e seu propósito fundamental, a defesa. O caráter de uma pessoa, ou o seu “transtorno de personalidade”, não passa, em última instância, de um conjunto de defesas estabelecidas contra algo que foi ou ainda é, mesmo que imaginariamente, ameaçador. A esta ameaça, interna ou externa ao sujeito, cabe a ele e ao psicoterapeuta descobrirem, ou mesmo construírem…
(Colaboração de Marcelo Bosch Benetti dos Santos, Psicólogo, especialista em Psicologia Clínica, mestrando em Psicologia Clínica – PUC-SP).
Publicado na edição nº 9925, dos dias 10 e 11 de dezembro de 2015.




