

Após seis anos afastado do principal horário da teledramaturgia brasileira, Aguinaldo Silva volta com tudo em “Três Graças”, sua nova novela das 9. O autor, que amargou o fracasso de O Sétimo Guardião em 2018, parece ter reencontrado o fio de ouro de sua escrita: o humor ácido, a caricatura bem dosada e o melodrama clássico que o consagrou. Três Graças é um acerto em cheio, um resgate da essência do folhetim popular que dialoga diretamente com o público, sem medo de ser novela.
E o grande símbolo desta retomada é Arminda, vivida com brilho por Grazi Massafera. A personagem é tudo o que Aguinaldo sabe construir de melhor: uma vilã carismática, exagerada, dona de si e movida por paixões desmedidas. Grazi entrega uma de suas melhores atuações na TV, está à vontade no texto, entende o ritmo da trama e dá à personagem camadas que vão além da caricatura. Arminda é magnética, e o público sente prazer em odiá-la. É impossível imaginar outra atriz no papel.
No contraponto, Sophie Charlotte surge em sintonia perfeita como Gerluce, a mocinha da história. Diferente das heroínas insossas que muitas vezes povoam o horário, Gerluce é carismática, humana e real. Sophie imprime emoção e naturalidade em cada cena, sua atuação é intensa, quase teatral, e está exatamente “acima do tom”, como pede o texto de Aguinaldo. Ela e Grazi formam um raro equilíbrio de forças: vilã e mocinha em pé de igualdade no coração do público.
Outro destaque que merece aplausos é o casal formado por Gabriela Loran e Pedro Novaes. A história dos dois vem sendo construída com delicadeza e tempo, sem pressa. Há afeto, química e verossimilhança. É uma narrativa que cresce aos poucos, com o cuidado de preparar o público para os futuros conflitos. Aguinaldo sabe como poucos plantar as sementes que germinarão no clímax, quando o amor dos dois for posto à prova, será impossível não se envolver.
O elenco, aliás, é um show à parte. Murilo Benício brilha como o vilão Ferete, dominando as cenas com presença e ambiguidade. Dira Paes, esplêndida como sempre, rouba a cena em cada aparição. A jovem Alana Cabral, estreante em novelas, surpreende com maturidade e entrega em suas sequências dramáticas ao lado de Sophie Charlotte, uma atriz que chegou para ficar.
Andreia Horta, por sua vez, diverte o público como Zenilda, a “corna do momento”, personagem construída com humor e emoção na medida certa. Aguinaldo planta aos poucos o estopim da virada que tem todos os elementos para uma clássica “surra de banheiro”, momento tradicional e esperado pelos noveleiros de carteirinha. E um destaque afetivo vai para Arlette Salles, que finalmente recebe um papel à altura de sua trajetória e brilha como nos velhos tempos.
Três Graças tem ritmo, texto afiado e alma de novela. Aguinaldo Silva parece ter aprendido com os tropeços do passado e devolve ao público um folhetim bem amarrado, divertido e cheio de camadas. O autor observa, provoca e corrige, inclusive algumas das distorções vistas em Vale Tudo, revitalizando temas sociais e morais com ironia e coragem.
A direção de Luis Henrique Rios é outro acerto incontestável. A câmera é viva, moderna, e a mise-en-scène resgata o prazer de assistir a um novelão. Há vigor, estilo e paixão em cada plano.
Em resumo, Três Graças é o reencontro da Globo com o que ela faz de melhor: novela de verdade, com personagens memoráveis, diálogos que soam naturais e emoção em estado puro. Depois de anos de instabilidade no horário nobre, Aguinaldo Silva prova que ainda é um dos grandes mestres do gênero. O público agradece, e assiste, enfim, ao retorno de um autor em plena forma.
Publicado na edição 10.964 de sábado a terça-feira, 1º a 4 de novembro de 2025 – Ano 101




