Uma difícil arte

Wagner Zaparoli

0
235

Há alguns anos eu escrevi um artigo sobre uma das mais proeminentes cientistas de todos os tempos chamada Marie Curie. Creio que o querido leitor já deva ter ouvido falar dela. A sua excepcionalidade foi tão grande que extravasou os parcos limites da ciência. Embora tenha sido a única a ganhar o Prêmio Nobel por duas vezes, se destacou principalmente pelo inabalável idealismo que a fez superar inúmeros obstáculos impostos por uma sociedade conservadora, retrógrada e machista. Como uma polonesinha, e ainda por cima mulher, poderia se formar em física pela Universidade de Sorbonne, em 1893, com as melhores notas da turma? Nem quero imaginar o que se passou pela cabeça dos homens que vivenciaram essa história, sejam eles colegas, alunos, ou mestres professores.

Do século XIX em que viveu Marie Curie para o nosso século XXI é notada uma sensível evolução na história das ciências e da sociedade. O homem (aqui referenciado como espécie) se conscientizou de que é um pequeníssimo elemento pertencente a um universo infinito, embora não tenha deixado de pisar a Lua; descobriu as menores partículas que formam esse mesmo universo, embora tenha grandes dificuldades para teorizá-las; e enxergou, relativamente bem, a importância de cultivar uma vida sustentável, embora esteja longe de vivê-la de fato. A sociedade por sua vez, conseguiu extinguir o estado medieval que erigia a vassalagem como fator de subsistência; extinguiu também o estado escravocrata que impulsionou a riqueza de muitas nações por um longo tempo; e, tentou definir leis que regem a igualdade entre os povos. Mas, o mundo não é perfeito.

O fio da navalha tupiniquim

Até 1879, a mulher não era aceita na universidade. As famílias brasileiras jamais tiveram a prioridade de enviar suas filhas para estudar na Europa, ao contrário dos filhos homens. Elas, as filhas, só tiveram acesso ao ensino superior quando a primeira universidade aqui foi fundada, em 1912, explicitamente nos cursos de humanidades.

No caso da física, as mulheres brasileiras tiveram participação efetiva somente a partir de 1934 com a criação da Universidade de São Paulo. Três nomes se destacam pelo pioneirismo: Yolande Monteux, que formada em 1937 foi uma das primeiras a estudar os raios cósmicos; Sonja Achauer, que se graduou em 1943 e foi a primeira brasileira a colar o grau de doutora pela Universidade de Cambridge; e, Amélia Império Hamburger, que se formou em 1954 e em 1967 doutorou-se pela Universidade de Carnigie Mellon.

Desse princípio desbravador, análogo ao ocorrido à Marie Curie na França, as mulheres (e não só as brasileiras) enfrentaram todo o tipo de desafio, sendo o maior deles, o desprezo pelos colegas homens, pelos mestres e por toda a sociedade despreparada para aceitá-las como participantes, em pé de igualdade com os homens, na aquisição e fabricação do conhecimento, na tomada de decisões e na condução dos processos.

Inúmeros são os exemplos dessa visão machista, como o contado pela Professora Márcia Barbosa, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, que ao término de um debate científico, escutou o seguinte comentário de seu oponente: “você ganhou a discussão porque usa perfume”.

O mais irônico dessa história é que em um mundo em que existe mais cultura, mais conhecimento, mais esclarecimento, que é o mundo da academia e das ciências, a mulher continua em desvantagem. Se essa desvantagem, transformada em números de participação, decaiu nos cursos de graduação e pós-graduação, ainda assim as mulheres não conseguem atingir os cargos de direção e não conseguem equiparar as suas médias salariais com as dos homens.

Questão de conciliações

Parte dos motivos que levam a mulher a um plano secundário na sociedade científica recai sobre as obrigações domésticas, seja sob o ponto de vista da maternidade, educação dos filhos ou manutenção do lar. Exatamente quando ela está pronta para assumir as suas principais funções de uma carreira de pesquisadora, por exemplo, coincide com o momento de ter filhos. Algumas conseguem conciliar os desafios, boa parte não. Ou se mantém em cargos menos exigentes ou mesmo encerram suas promissoras carreiras.

Como diz a Professora Léa Velho, da Unicamp, “garantir a participação equitativa entre homens e mulheres não é importante apenas por uma questão de justiça, mas também porque as mulheres têm uma visão de mundo diferente da dos homens, fazendo com que elas elaborem perguntas científicas diferentes e tragam novas perspectivas de análise diversas”.

O machismo, não só na ciência, mas em todos os segmentos da sociedade, definitivamente precisa ser descontruído. E essa não é uma opção!

Caso tenha interesse, dê uma passadinha sobre a cronologia das mulheres na ciência (https://pt.wikipedia.org/wiki/Cronologia_das_mulheres_na_ci%C3%AAncia).

(Colaboração de Wagner Zaparoli, doutor em ciências pela USP, professor universitário e consultor da informação).

Publicado na edição 10.701 – Quarta, quinta e sexta-feira, 21, 22 e 23 de setembro de 2022.