
O ano de 1984 foi especial na história de Bebedouro, devido às comemorações do centenário de sua fundação e, desta forma, o poder executivo nomeou uma comissão para organizar as comemorações, que incluiu a eleição da “Rainha do Centenário”. Conforme o release, o objetivo deste concurso era escolher a representante que simbolizaria a beleza, inteligência, alegria e simpatia da “Cidade Coração”.
Previsto para ocorrer no dia 14 de abril, os dias que antecederam o evento foram de muita expectativa, com ampla cobertura da imprensa, que informava sobre os preparativos, assim como fotos e perfis das candidatas. Para concorrerem ao título, houve a inscrição de doze jovens que representavam entidades e empresas da cidade.
No dia previsto, numeroso público compareceu ao Ginásio de Esportes da Fecib para prestigiar o espetáculo, que contou com apresentações de artistas locais e da consagrada Elizete Cardoso, que interpretou diversos clássicos da música brasileira.
O concurso aconteceu conforme fora planejado: as candidatas foram apresentadas, desfilaram com traje típico, de banho e de noite, o corpo de jurados fez as escolhas e foram anunciados o melhor traje típico, a garota simpatia, as duas princesas e a rainha. Logo após a premiação, entre alegrias e decepções o evento foi encerrado.
No entanto, o assunto voltaria à tona nos dias seguintes de uma forma inesperada: em 19 de abril, cinco dias depois da realização do evento, seria publicado na “Folha de São Paulo” um artigo de autoria de Patrício Bisso, articulista daquele periódico e que participara do corpo de jurados como convidado especial.
Nascido na Argentina e radicado no Brasil, Patrício atuava como ator, figurinista, cenógrafo, ilustrador e escritor. Sendo conhecido por sua criatividade e irreverência, participou de vários filmes, peças de teatro, novelas e programas de televisão, além de criar vários personagens.
No artigo “Rainha do Centenário”, Patrício conseguiu desagradar os bebedourenses com comentários infelizes sobre tudo que viu e participou. Definiu Bebedouro como “uma cidadezinha bem simpática, tem uma praça, uma igrejinha, aquelas coisas […] Bebedouro assim se chama porque era lá que as vacas paravam para beber apenas água.” Sobre os jurados, “Parece que tinham convidado Roberto Carlos, o goleiro Leão, a Sônia Braga e eu. Só eu que fui. O resto do júri eles cataram às pressas.” Sobre o concurso, “começa com o desfile das candidatas em trajes típicos […] Todas se inspiraram na tal fruta (a laranja) para fazer as suas fantasias: umas carregam o cítrico na mão, outras na cabeça […]”. Até mesmo sobre a artista convidada fez um comentário mordaz: “Antes de escolherem as cinco finalistas tem um show de Elizeth Cardoso. É uma homenagem especial, porque parece que ela já esteve lá na época da fundação da cidade.” E sobre o resultado, “No meio de uma gritaria infernal anunciam a ganhadora, e todo mundo fica indignado porque parece que ela nem mora em Bebedouro, é de Campinas.”
Tão logo a população tomou conhecimento do teor do artigo, houve inúmeros protestos por meio de telefonemas e cartas enviadas ao articulista e ao jornal, além de manifestos nas emissoras de rádio e imprensa local.
Na semana seguinte, em 26 de abril, novamente Patrício voltava ao assunto em sua coluna, mas desta vez para retratar-se. Com o artigo “Débil, estúpido e idiota”, adjetivos que atribuía a si mesmo, comentou “A minha ilustre carreira de estupidez culminou na semana passada com aquela infeliz crônica sobre a Rainha do Centenário de Bebedouro, que parece que deixou a cidade em pé de guerra.” E após discorrer sobre várias situações vexatórias ao longo da carreira, terminou com uma mensagem para “a simpática cidadezinha interiorana de Bebedouro”.
No entanto, a retratação não foi aceita, mesmo após a Folha de São Paulo publicar uma carta da Prefeitura, intitulada “Bebedouro contra-ataca”. Nesta, o prefeito Sérgio Sessa Stamato afirmava “com os esclarecimentos […], damos por encerrado tão lamentável episódio nas comemorações do nosso Centenário”,
O resultado foi a publicação do decreto legislativo no. 80, de 7 de maio de 1984, que determinou: “fica declarado como “PERSONA NON GRATA” à cidade de Bebedouro, o Sr. PATRÍCIO BISSO”. E ainda, “Como lembrança ao que se refere ao artigo 1º, ficará afixado na Câmara Municipal em “Lugar Apropriado”, o nefasto diploma como repúdio da população”.
Pelo que consta, depois do ocorrido Patrício Bisso não mais retornou à Bebedouro, tendo falecido aos 62 anos, em 13 de outubro de 2019, em Buenos Aires, na Argentina, sua terra natal.
Publicado na edição 10.693, de sábado a terça-feira, 20 a 23 de agosto de 2022.





