
Nossas cidades se tornam cor de cinza. É só concreto, aço, vidro e outros materiais cuja fabricação é altamente poluente. Outra característica da construção civil é que 35% do material utilizado é descartado, constituindo o resíduo sólido mais nefasto para a vida humana. Em São Paulo, por exemplo, todas as noites muitos caminhões clandestinos, a maioria com placas falsas, despeja detritos da construção civil nas represas, nos córregos, nos jardins, nas praças e nas ruas.
Não é uma questão apenas de polícia. É uma questão de educação no sentido estrito. Não necessariamente educação ambiental. É urgente que se crie uma consciência de que as cidades precisam adotar soluções de acordo com a natureza e não continuar a ser concentrações inóspitas e insalubres de grandes caixotes de concreto. Não são apenas os edifícios. Também as residências, perderam os jardins, erguem muros elevados, tornam-se verdadeiros bunkers, onde a natureza não tem acesso.
O remédio é multiplicar as áreas verdes em todas as cidades brasileiras. A ciência o recomenda. Ranny Michalski, professora da FAU-USP, especialista em conforto ambiental e acústica urbana, realça a importância das áreas preservadas para a vida humana, sobretudo ante o quadro de cataclismo climático ora enfrentado pela humanidade.
Para ela, deve-se criar espaços verdes em toda a cidade, como praças, parques, corredores ecológicos, que permitam a circulação de aves, insetos e mamíferos. O Brasil desprezou os córregos, os cursos d’água, criando uma civilização que se notabilizou por construir moradias de costas para a água, cujo limite é o muro por cima do qual se lança lixo na benção da natureza chamada rio.
Brincamos de Deus e “corrigimos” o curso natural dos rios, potencializando as enchentes, porque eles querem retomar suas margens. Não investimos em telhados verdes, nem multiplicamos as “vagas verdes”, para tomar do automóvel – esse veículo egoísta – um pequeno espaço para plantio de espécies vegetais.
O ideal seria a adoção do conceito de “cidade esponja”, tão bem desenvolvido pelo arquiteto chinês Yu, recentemente falecido, quando propagava sua estratégia de fazer cidades mais conformes com a natureza, algo que precisaria envolver toda a poderosa indústria da construção civil nacional. Vamos fazendo o que é possível, enquanto a consciência pátria ainda parece adormecida para as urgências criadas por nós mesmos, ao desrespeitarmos o ambiente e a nos servirmos dos recursos naturais de maneira cruel e desmedida.
Livremo-nos dos plásticos
A maldição dos plásticos já contaminou o mundo. Microplástico já está em todas as artérias, órgãos, cérebro e até na placenta das gestantes. O descaso da imensa maioria da população faz com que o plástico substitua o solo natural e recubra a superfície da Terra e o fundo do mar dessa substância que não se decompõe e apressa a morte.
As garrafas PET ganharam a preferência dos consumidores e elas também contêm partículas de microplástico, ainda que se possa imaginar que elas só forneçam água pura. A má notícia é que ninguém dá importância para esse anúncio tétrico. A boa notícia é que a ciência pode contribuir para eliminar até 92% de resíduos plásticos presentes na água em duas horas.
A USP, a maior universidade brasileira, investiu num método de purificação que combina processos químicos. O resultado é a remoção de bisfenol A, substância que se encontra em grande parte daquilo que se consome rotineiramente.
Os cientistas advertem que a poluição causada pelo plástico é a segunda mais grave ameaça que ronda a humanidade. A primeira é o próprio cataclismo climático. O descarte inadequado impacta negativamente a natureza e compromete a saúde animal e humana.
A disseminação dos resíduos plásticos libera perigosas substâncias químicas de toxicidade letal, como o bisfenol A, que aparece nos textos como BPA. O bisfenol A pode causar câncer, diabetes, obesidade e problemas cardiovasculares.
Está presente no solo e na água, como resultado do despreparo da população ao descartar aquilo que desperdiça. Pesquisadores da USP em Ribeirão Preto investiram na criação de um método eficaz na eliminação do BPA na água. Combinaram tratamentos eletroquímicos, mediante utilização de corrente elétrica em substâncias químicas e o material biológico retirado de fungos. A explicação técnica é fornecida por Alexandre Carneiro Cunha, do Departamento de Química da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras, responsável pela pesquisa. Uma boa nova alvissareira, já que nossos rios, principalmente o Tietê, já está contaminado com BPA e é importante que essa descoberta ganhe escala, para trazer maior qualidade de vida a quantos têm contato com a água de um rio tão emblemático. É a ciência ajudando a salvar vidas. Que outras pesquisas prossigam a trazer alento para a população paulista e brasileira.
(Colaboração de José Renato Nalini, reitor da Uniregistral, docente da Pós-graduação da Uninove e Secretário-Executivo das Mudanças Climáticas de São Paulo).
Publicado na edição 10.967, quarta, quinta e sexta-feira, 12, 13 e 14 de novembro de 2025 – Ano 101





