
“… Podemos converter alguém pelo que somos nunca pelo que dizemos.” – (H. Rohden).
Julio Cesar Sampaio
Na fachada do templo de Delfos, o mais famoso santuário da antiguidade grega, estavam gravadas as palavras lapidares: gnôth seautón! -, isto é: conhece-te a ti mesmo! Sintetizava essa legenda, brevíssima e imensa, a alma de toda a filosofia da educação. Não pode o homem conhecer o mundo ao “redor” dele (kósmos), nem o mundo “acima” dele (theós), sem primeiro conhecer o mundo “dentro” dele (ânthropos), uma vez que o instrumento-chave que ele emprega para qualquer conhecimento é o seu próprio Eu. Desde então, vigora na filosofia grega o célebre tema: “o homem é a medida de todas as coisas” (Protágoras). Mas… Que é o homem? O homem é a natureza humana tomada no sentido “universal”, ao passo que este ou aquele indivíduo concreto e visível é apenas uma manifestação transitória do homem eterno – afirmam os socráticos, assim chamados segundo seu grande chefe, Sócrates de Atenas. Sendo, pois, que o homem é um ser real, claro está que ele é, essencialmente e exclusivamente, um indivíduo. Dessa concepção individualista e concreta da natureza do homem nasce, necessariamente, uma psicologia e ética também individualistas ante o papel da educação propriamente dita! Em suma, a ética da Educação, pela arte de eduzir – extrair -, bem como a sociologia e a política, que derivam dessa concepção universalista do homem, revestem, naturalmente, o caráter e colorido dessa metafísica fundamental. Portanto concluí-se, que o homem, para ser feliz, deve “conhecer a si mesmo”, sua verdadeira natureza “extraída” (ou eduzida) dos educadores, e viver em harmonia com esse conhecimento, sendo ele “a medida de todas as coisas” (…). Destarte, numa simples analogia escolar, podemos explicitar que ser docente na área acadêmica de Filosofia é ser, tão somente, um vendedor de ideias. Pelo que a experiência na “arte de educar” nos lega a cada instante, constatamos que não é possível (por enquanto) dar à educação uma base filosófica, se por filosofia e educação se entende o que nós, de modo geral, (ainda) pensamos, equivocadamente: uma “aloeducação” (educação que “vem de fora”). A autoeducação é idêntica à autorrealização, que, como tal, não é da alçada dos poderes públicos, mas de iniciativa particular do educador. Uma “aloeducação” gira em torno do problema social da moralidade do agir, ao passo que a autoeducação focaliza o assunto individual da verdade do ser. Indiretamente, é verdade, a “filosofia da verdade” do ser afeta também a sociologia da moralidade do agir, mas as escolas não tratam diretamente daquela. Se for verdade de que “agere sequitur esse” (o agir segue ao ser), que o agir é um transbordamento do ser, por que não poderia um educador plenamente realizado em si mesmo influenciar beneficamente os educandos (alunos) realizáveis, mesmo sem nenhum programa de técnica externa? Cabe ao educador fazer desenvolver uma delas e orientar o indivíduo a ocupar o seu devido lugar na sociedade. Entendemos por educar, tão somente, o ato de eduzir, ou seja, que é que o educador deve eduzir, ou “conduzir para fora” uma autoeducação do educando. O educador que não seja um autorrealizado não pode mostrar ao educando o caminho a se seguir. Palavras não são eficientes, se elas não forem o transbordamento espontâneo da vivência do educador. O ser é a alma, dizer é apenas o corpo da verdadeira pedagogia. Assim como a alma gera o corpo do homem e lhe dá vida, assim o ser do educador dá vida e poder a todo o seu dizer ou ensinar! Devemos, pois, nós educadores (ou melhor, “vendedores de ideias”), ensinarmos nossos alunos a realizarem boas perguntas (pela autoeducação), e não darmos a eles supostas respostas, inicialmente… OK?!
(Colaboração de Julio Cesar Sampaio, Licenciado em Filosofia com pós-graduação no ensino de filosofia).
Publicado na edição nº 9800, dos dias 31 de janeiro, 1° e 2 de fevereiro 2015.




