Zebrafish, a nova cobaia

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Sempre que eu caminho pelas proximidades do Instituto de Ciências Biomédicas no campus da USP em São Paulo aos finais de semana, é comum sentir o cheiro da ração que os pesquisadores fornecem aos roedores que servem de cobaias para as pesquisas ali realizadas. Como no Brasil e boa parte do mundo já não é mais permitido utilizar-se primatas em pesquisas, os roedores acabaram se transformando na opção mais viável, dado que possuem 85% de semelhança genética com os seres humanos, são mamíferos e não exigem um alto gasto de manutenção – cerca de R$8,00 por roedor ao dia.
Para os laboratórios e institutos menos afortunados financeiramente, o uso da mosca drosófila em testes tornou-se o caminho mais adequado, embora com algumas restrições, por exemplo, 60% de semelhança genética conosco, é um invertebrado e a sua reprodução é feita através de embrião externo.

Um meio termo

Durante mais de 20 anos o pesquisador norte-americano George Streisinger, da Universidade do Oregon, trabalhou na seleção de linhagens de um pequeno peixe nativo de rios calmos e rasos do sudoeste da Ásia chamado zebrafish, ou para nós, paulistinha. A idéia de Streisinger era viabilizar a utilização dessa espécie como cobaias de laboratório.
Do final da década de 1960 ao início dos anos de 1980, Streisinger trabalhou com afinco na construção de um modelo biológico da espécie que culminou em uma publicação na revista científica Nature. A partir daí, o zebrafish passou a povoar com mais freqüência os laboratórios do mundo todo, já que apresentava mais vantagens do que a drosófila quando comparadas as características biogenéticas de ambos. Além de ser um vertebrado, o zebrafish posta cerca de 100 ovos/dia, possui um custo diário de manutenção relativamente baixo (R$0,60 por peixe) e tem cerca de 70% de semelhança genética em relação aos humanos. Com ele é possível testar em poucos meses e poucos milhares de dólares o que levaria anos e alguns milhões se fossem usados roedores.

Sobre as pesquisas

O zebrafish foi usado pioneiramente no Brasil pela pesquisadora Rosana Mattioli, da Universidade Federal de São Carlos nos anos de 1990. Como ainda não existiam registros disponíveis sobre o comportamento natural da espécie, Mattioli realizou pesquisas para conhecer as preferências do peixe e suas ansiedades, o que gerou uma publicação no Brazilian Journal of Medical and Biological Research, em 1999.
A partir de então outros pesquisadores vêm estudando compostos que controlam essa ansiedade, de tal forma a identificar, por exemplo, alterações químicas e celulares neurocerebrais. A Unicamp é uma das instituições que adotaram o zebrafish, tanto para entender os impactos das crises epiléticas, bem como o desenvolvimento e evolução dos vertebrados. A PUC-RS também tem utilizado a espécie, neste caso, para compreender os efeitos de proteção provocados pela adenosina contra a epilepsia, o estresse e a neurotoxidade induzida por metais. Ali também se investiga a bioquímica da memória e das doenças neurodegenerativas como o mal de Alzheimer.
Em resumo, com as crises econômicas que rondam o mundo e o apressamento por novas drogas que consigam combater ou inibir o progresso das doenças, laboratórios e pesquisadores são obrigados a descobrir novos elementos de pesquisa que sejam mais baratos, mais produtivos e mais ágeis. O zebrafish, em sua estrutura aparentemente simples e barata entrou na rota da ciência para mostrar que isso é possível e promete um futuro de grandes resultados. É esperar para ver.

Publicado na edição nº 9928, dos dias 17 e 18 de dezembro de 2015.