A ausência feminina nos nomes das primeiras ruas e avenidas de Bebedouro

José Pedro Toniosso

0
57
A primeira avenida de Bebedouro a receber o nome de uma personalidade feminina, homenageou Maria Batistina Dias de Toledo, no ano de 1957.

Uma das formas de reconhecimento da contribuição e do trabalho dos cidadãos de determinada sociedade é a atribuição do seu nome a logradouros públicos, como ruas, avenidas, praças, escolas e outros. Geralmente esse procedimento ocorre após o falecimento do homenageado, indicação à Câmara Municipal e aprovação dos vereadores.

No processo de formação da cidade de Bebedouro, as primeiras ruas não possuíam denominações oficiais, sendo conhecidas por nomes que faziam alusão a algum morador mais popular, algum santo católico, comércio ou instituição.

Observa-se que, no entanto, desde este período, conforme o mapa de 1889 publicado na obra “Bebedouro, em Revista”, de 1949, havia claramente o predomínio de nomes de figuras masculinas, sendo exceção apenas as ruas denominadas “Maria Inocência” (atual Nossa Senhora de Fátima) e “Maria Belisária” (hoje a rua Dr. Oscar Werneck), personagens sobre as quais não temos outras informações.

Ainda no final do século XIX, logo após a emancipação e formação da primeira Câmara Municipal em 1894, teve início o processo de oficialização das nomenclaturas das ruas bebedourenses, com nomes de santos, datas históricas e, principalmente, figuras políticas locais ou mesmo estaduais e nacionais. Havia, porém, um detalhe importante: todos os laureados eram do sexo masculino, não existindo um logradouro sequer que recebesse o nome de alguma figura feminina.

Analisando diversas publicações e relatórios das três primeiras décadas do século passado, mesmo com o significativo crescimento urbano, que resultou na abertura de diversas novas ruas, observa-se a manutenção do mesmo quadro, pois todos os logradouros com denominação de cidadãos, referem-se apenas a personalidades masculinas.

Ao que tudo indica, a primeira homenageada em uma das ruas localizadas na região central foi a professora “Maria Pinto da Fonseca”, nome que substituiu a anteriormente denominada Santa Firmina, próxima ao Cemitério Municipal. Atuante no magistério bebedourense, fez parte do corpo docente do Primeiro Grupo Escolar quando o mesmo foi inaugurado, em abril de 1913, sendo responsável pela formação inicial de inúmeras crianças.

Além da região central, constatou-se que entre o final da década de 1940 e início da seguinte, na recém-criada Vila São José, duas vias públicas receberam provisoriamente os nomes de Honória Toledo de Carvalho e Maria Dias, respectivamente esposa e sogra do Major Cícero de Carvalho, em cujas terras se formou o referido bairro.

Somente em 1957, por meio da Lei Municipal no. 339, é que foi oficializado: “O prolongamento da rua São João, além do pontilhão sobre o Córrego da Consulta, na Vila Major Cicero de Carvalho (ex-São José), passa a denominar-se Avenida Maria Dias. ” Quanto à rua Honória Toledo de Carvalho, a oficialização do nome ocorreu somente em 1974, por meio do Decreto no. 862, que regularizou os nomes de dezenas de vias públicas em diversos bairros.

A denominação das outras ruas do bairro ocorreu em dezembro 1956, que incluiu entre os homenageados a religiosa passionista Irmã Crucifixo, falecida em 1952 e que por vários anos atuou na Santa Casa de Misericórdia. Posteriormente, duas vias do bairro Parque Residencial Santo Antônio, receberam o nome de Passionistas e Dorotéias, em referência às duas congregações religiosas femininas presentes na comunidade bebedourense.

Foi em 1975 que outra avenida de Bebedouro passou a homenagear uma personagem feminina, por meio da Lei no. 1.064, que assim indicava no Artigo 1º: “Passa a denominar-se Avenida Donina Valadão Furquim, a Rua José Francisco Paschoal, no trecho entre a Rua Nossa Senhora de Fátima e a ponte sobre o Lago, e a Rua São Francisco, da ponte até a Avenida do Educandário. ” A homenageada era esposa do Cel. Raul Furquim, fazendeiro e político de grande expressão na história bebedourense.

A partir da década de 1980, com o crescimento urbano proporcionado pela citricultura, ocorreu o surgimento de diversos bairros e, consequentemente, novas vias públicas. Desde então, parte destes logradouros recebeu a denominação de mulheres bebedourenses, resultado da ampliação da participação feminina na sociedade, desempenhando novos papéis na área econômica, política, social e cultural.

(Colaboração de José Pedro Toniosso, professor e historiador bebedourense

www.bebedourohistoriaememoria.com.br).

Publicado na edição 10.909, sábado a sexta-feira, 15 a 21 de março de 2025 – Ano 100