A Noiva da Campos Salles – Bebedouro – 1973

Dymiro Vita

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Waldomiro Almeida Junior, bebedourense de coração, engenheiro civil com atuação em barragens e usinas hidrelétricas, atualmente como consultor técnico

A humanidade sempre gostou de contar e espalhar estórias de fantasmas, assombrações, espíritos e similares. Tem sempre alguém que ouviu ou “viveu” alguma estorinha com fantasmas. Aqui no nosso mundo tupiniquim a mitologia e o folclore são ricos. Tem Saci Pererê, Mula-Sem-Cabeça, Caipora, Curupira, Boi-Tatá, Lobisomem, Cuca, Iara e muitos outros. Nas pescarias sempre tem algum fantasma envolvido, que, vez por outra, puxa os peixes maiores de volta para o rio. Os boatos se espalham de gente que viu o defunto se mexer, abrir a boca, virar os olhos ou falar no velório ou de velas que ali se apagaram sem ter nenhum vento. Até de fantasmas que vieram fazer cobranças e pedir alguma coisa. O imaginário brasileiro não tem limites. Numa determinada época, nos anos 1970, se proliferaram estórias no interior. Começou com a da bela loira que “aparecia” em banheiros públicos masculinos querendo seduzir os homens, mas que escorria um pouco de sangue pelo canto da boca. Outra loira estupenda aparecia em bailes, se deixava seduzir e aceitar convite para que fosse levada para casa após o baile. Não dizia exatamente onde morava, apesar da insistência do acompanhante, e iam caminhando. O paquerador, diante do tamanho da conquista, não desconfiava de nada. Após caminharem bastante, chegaram até um cemitério. A loira abriu o portão e disse: “é aqui que eu moro” e desapareceu. Vocês devem imaginar que as loiras eram preteridas nos bailes. O pessoal só paquerava morena. E a coisa flui.

Bebedouro não poderia ficar de fora desses boatos e lendas. Vale contar a do funcionário de uma funerária em Bebedouro que começou a ficar impressionado de tanto ter contato com cadáveres. Dizem até que isso é uma síndrome. O tal funcionário foi ficando cada vez mais abalado e afetado com o seu tipo de trabalho. Certa vez, foi levar no carro funerário, um corpo pra um velório noturno em Taiúva, cerca de 33 km de Bebedouro, e disse, muito apavorado, que o cadáver saiu do caixão, se sentou no banco do carona e começou a conversar com ele. Aterrorizado e extremamente assustado, acabou entrando na traseira de um caminhão e escapou por pouco.

Não poderiam ficar de fora as estórias relacionadas com o Jardim Misterioso, que foi o cemitério de Bebedouro até 1912, quando foi transferido para o cemitério municipal atual, que fica no final da rua Campos Salles. Conta-se, em Bebedouro, que uma noiva, todas as madrugadas por volta de 3h30, sobe a rua Campos Salles e desaparece no Jardim Misterioso. É uma lenda que aterroriza grande parte da cidade. Dizem que foi uma noiva que morreu na véspera do seu casamento, foi sepultada no cemitério antigo e seus restos mortais foram posteriormente removidos para o novo cemitério que fica no final da rua Campos Salles. Todavia, ela não se conforma, e quer retornar ao cemitério antigo, hoje Praça Valêncio de Barros. Por essa razão, ela sobe a rua Campos Salles. Cabe lembrar do acidente do finado Zé Mauro, meu primo, que foi médico em Marília, vindo da Av. Raul Furquim, e batendo em diversos carros estacionados na rua adjacente ao Jardim Misterioso. Boatos à época dizem que a noiva cruzou na frente do carro do Zé Mauro e, por isso, ele se assustou e acabou perdendo a direção. Portanto, todo o uísque que ele bebeu foi absorvido diante dessa prova do outro mundo. Muito bem, vamos tomar um fôlego para continuar. No ano de 1973, como a “estória” da tal noiva não tinha ainda sido bem digerida, quatro “valentões e corajosos boêmios da noite bebedourense” resolveram decifrar o enigma. Juntaram-se numa certa noite no bar do Nenê Galo, que ficava defronte à sede social do Bebedouro Clube, na esquina da XV de novembro com Oscar Werneck. Começaram a beber para esperar o horário de descer a Campo Salles e desvendar o mistério da tal noiva. Por volta de três e meia da madrugada, o esquadrão de caça-fantasmas composto por mim, Turco Fadala, amigo e parceiro, Miguelão e Junior da Leyla, meus primos e amigos, entrou na Variant do meu pai, nosso veículo oficial à época. Subimos a rua XV de novembro, contornamos o Jardim Misterioso, sempre ele, subimos a Raul Furquim e começamos a descer à direita, a rua Campos Salles. Cruzamos a rua São João, Coronel João Manoel, Brandão Veras e continuamos. É importante salientar que estávamos carregados de muita coragem e determinação, mas por precaução alguns usavam fraldão. Apreensão total. Rua totalmente deserta, silêncio sepulcral, alta madrugada e indo em direção ao cemitério. Nem gato preto cruzava a nossa frente. Faltando mais ou menos três quarteirões para chegar ao cemitério, vimos um vulto branco atravessando a rua. O pessoal com a voz carregada de pavor gritou: “vire o carro”. E eu, que não tenho nenhuma vocação para herói, obedeci prontamente. Virei o carro na próxima rua à direita, viramos um cisco e nem olhamos pra trás. Ficamos sabendo depois que o vulto que vimos era um homem vestido de branco e entregando leite.  Permanece o mistério da noiva da Campos Salles.  História verídica que fica para sempre na nossa memória.

(Colaboração de Waldomiro Almeida Junior, bebedourense de coração, engenheiro civil com experiência em barragens e usinas hidrelétricas, atualmente atuando como consultor técnico).

Publicado na edição 11.042, quarta, quinta e sexta-feira, 21, 22 e 23 de outubro de 2026 – Ano 102