

Bebedourense nascida em 14 de maio de 1906, Cacilda Rezende Pulino pertencia a uma das famílias mais conhecidas no início do século passado. Filha de Raphael Pulino e Maria Rezende Pulino, era neta do coronel Alexandre Pulino, que além de comerciante, exerceu funções importantes, como delegado de polícia, fabriqueiro da Paróquia, vereador da Câmara e provedor da Santa Casa.
Em 1918, a família de Cacilda mudou-se para Catanduva, onde o pai exercia a profissão odontológica. Foi naquela cidade que a jovem deu continuidade aos estudos e escreveu o primeiro livro. O romance intitulado “A Cruz do Amor” foi lançado em 1928, e sobre ele a Gazeta de Bebedouro publicou um artigo em primeira página, no qual recomendava a obra a seus leitores.
Em edição de agosto de 1930 o Jornal de Bebedouro registrou que Cacilda R. Pulino havia proferido com muita eloquência uma conferência na sua cidade natal, sobre o tema “A Caridade, a Esperança e a Saudade”. De acordo com o jornal, a conferência fora realizada na sede da AECB, diante de “numerosa e selecta assistência”.
Foi em Catanduva que a jovem deu início à atuação política, ingressando nas fileiras do Partido Socialista Brasileiro, fundado em novembro de 1932. Importante destacar que o direito à participação política das mulheres no Brasil havia sido recém-conquistada, por meio de um decreto publicado em fevereiro daquele mesmo ano.
Naquele contexto, Cacilda tornou-se uma defensora convicta dos ideais socialistas, sendo indicada pelo Partido como candidata à deputada estadual por São Paulo. Durante a campanha eleitoral foram realizados comícios na cidade, conforme noticiou o Jornal de Bebedouro: “No domingo passado, teve lugar no salão da sociedade “Izabel Redentora” um concorrido comício socialista, tendo-se feito ouvir a snrta. Cacilda Rezende Pulino (…). Com notável brilho, firmeza e erudição explanou a ardorosa propagandista e candidata a deputada estadual, os princípios básicos do socialismo, com profusão de argumentos em prol da união dos operários afim de com eficiência pugnarem pelos seus direitos”.
Dias antes do pleito, realizado em 14 de outubro, a caravana socialista esteve novamente em Bebedouro para divulgar a candidatura que, no entanto, não obteve o número de votos necessários. Após as eleições o pluripartidarismo continuou até novembro de 1937, quando todos os partidos políticos foram extintos em decorrência do golpe de Estado decretado por Getúlio Vargas e que instituiu a ditatura do Estado Novo.
Outro livro seria publicado em 1938, o romance “Florinda”, ambientado no período da escravatura e sobre o qual o jornal Correio Paulistano publicou uma crítica assim finalizada: “Os espíritos de arte devem ler ‘Florinda’, delicioso romance na sua sensibilidade artística e nos seus valores de linguagem”.
Dois anos depois, a escritora passou a assinar como “Cacilda Pulino Gardel”, devido ao casamento com o também bebedourense Fernando Gardel Filho. Mudou-se de Bebedouro, mas visitou a cidade por diversas vezes, inclusive para divulgar o livro “Entre duas bandeiras”, lançado em 1947.
Manteve-se atuante politicamente e durante a campanha das eleições municipais de 1947, diante da falsa notícia de que poderia ser candidata a prefeita, travou um aguerrido confronto contra os redatores de “A Vanguarda”, tendo publicado na Gazeta uma longa resposta aos detratores do outro jornal.
Morando em Campinas, fundou junto com o marido a “Cinematográfica São Rafael”, tendo lançado em 1954 o único filme que realizou: “Sós e Abandonados”, escrito e produzido por Cacilda P. Gardel, em enredo que abordou a situação dos menores abandonados, mantendo sua marcante preocupação com as questões sociais.
Há poucas informações sobre o falecimento de Cacilda Pulino Gardel, que possivelmente ocorreu no exterior, no início da década de 1960. Apesar de ter se destacado como escritora, militante política, conferencista e cineasta, numa época em que não era comum o protagonismo feminino nestas esferas, trata-se de uma personagem pouco conhecida pelos seus conterrâneos. Sendo assim, o dia em que se comemora o Dia Internacional da Mulher, vem a ser um momento oportuno para reparar esta lacuna, revelando aspectos de sua singular biografia.
(Colaboração de José Pedro Toniosso, professor e historiador bebedourense
www.bebedourohistoriaememoria.com.br).
Publicado na edição 10.908, sábado a sexta-feira, 8 a 14 de março de 2025 – Ano 100