Corsos, batalhas de lança-perfumes, confetes e serpentinas: o Carnaval nas primeiras décadas do século passado

José Pedro Toniosso

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Nada de escolas de samba, trios elétricos ou shows com artistas populares e muito menos o apoio do poder público para promover os festejos. O carnaval dos primeiros tempos em Bebedouro acontecia exclusivamente por iniciativa dos próprios foliões.

Na primeira década do século passado, a imprensa atribuía o sucesso das festas às comissões de cidadãos, como a de 1909, formada por Antônio Ribeiro Barata, Francisco Christiano, Thomaz Rotundo, Antônio Baptista e Alfredo Castro.

O sucesso do Carnaval daquele ano era festejado: “Um grupo de alegres e corajosos rapazes promoveu ruidosos festejos carnavalescos. Domingo, primeiro dia de carnaval, percorreu as ruas da cidade, um préstito composto de diversos carros, conduzindo os alegres foliões. Precedia-os cavalleiros fantasiados formando a guarda e annunciando o início do carnaval. A noite, o Grupo dos Esfolados abrio os salões de sua caverna dando um deslumbrante baile que, animadíssimo e na melhor ordem, prolongou-se até alta madrugada. […] Terça-feira, o Grupo dos Esfolados, desfraldando o seu glorioso estandarte em magnífico carro, seguido de outros, conduzindo heróis e heroínas do Carnaval, fez a sua entrada no largo (da Matriz), causando sucesso o seu apparecimento. Mais um estrondoso baile a noite deu o valente Grupo, ficando repleto o salão das danças.”

Nos anos seguintes, os festejos seguiram o mesmo formato, sempre de forma espontânea e alegria garantida nos três dias do reinado de Momo. Em 1916, o Carnaval era apresentado como uma festa “para ricos e pobres, grandes e pequenos, fidalgos e plebeus”. Naquele ano, o domingo estava chuvoso, o que não impediu a realização de diversos bailes à fantasia, um mais elitista, no salão da Associação Atlética Americana, outro, mais popular, no salão do Rink, e, ainda, no Cinema Rio Branco, “uma formidável batalha de lança-perfumes e serpentinas”, seguido de “um animado baile popular à fantasia ao som de excellente orchestrina composta de piano, flauta e dous violões”. Na terça-feira, com o tempo bom, “as ruas estiveram cheias de mascarados, uns a pé e outros a cavalo. À noitinha, logo que a música chegou ao jardim, travou-se ahi uma renhida peleja de lança-perfumes, que só terminou ao abrir-se o Cinema Rio Branco, para onde se transladaram, em sua maioria, os ardorosos combatentes.”

Parte do sucesso do carnaval nas ruas e salões devia-se também ao comércio, sendo diversas as lojas que ofereciam mercadorias para essas festas. Em 1907, por exemplo, a Casa Sarmento informava que recebera “um grande sortimento de máscaras de papelão, de seda e de arame, dominós e outras roupas carnavalescas, confettis de todas as cores, serpentinas, bisnagas e outras tantas cousas que servem para festejar o Momo.” A partir do ano seguinte, o lança-perfumes passou a ser oferecido pelo comércio, conforme anunciado pelo Salão Toilette e pelo Bar dos Viajantes. No decorrer dos anos, estabelecimentos como Casa Guarany, Bazar Beija-Flor, Salão da Elite, Casa Kfouri e Casa Fhahia, publicaram diversos anúncios de produtos para o Carnaval.

“Quer V. S. comprar os melhores artigos para o Carnaval?”, perguntava o anúncio do Salão da Elite, em 1922. Além de todos os produtos já citados, oferecia também “um completo sortimento de finas e ricas fantasias como sejam: Pierrots, Colombinas, Irlandezas, Cartomantes, Toureiros, Girasoes, Follies e muitas outras que seria difícil mencionar, tudo optimamente confeccionado e em finíssima seda.”

No “pomposo” Carnaval de 1929, o corso pelas ruas São João, Alfredo Ellis (atual Oscar Werneck), XV de Novembro e Francisco Inácio, incluiu carros bem enfeitados e foliões com ricas fantasias e bastante animados, atirando e recebendo serpentinas, diante da grande massa popular que se aglomerou nas calçadas durante os três dias de festas.

Após o corso, em todas as noites aconteceram os bailes à fantasia nos salões da Associação Atlética Internacional e do Círculo Italiano. A recém fundada Associação dos Empregados no Comércio também promoveu um baile à fantasia, enquanto o Cinema Rio Branco, mantendo a tradição, realizou os grandes bailes populares.

Nas décadas seguintes os festejos passariam por diversas mudanças, com o surgimento de novos clubes e associações e concursos de escolas de samba, carros críticos e alegóricos, sendo construído até mesmo um sambódromo para a realização dos desfiles. Mas tudo isso são outros carnavais, assuntos para serem abordados em outros artigos.

(Colaboração de José Pedro Toniosso, historiador e professor bebedourense).

Publicado na edição 10.735 – De sábado a sexta-feira, 18 a 24 de fevereiro de 2023