Costuras partidárias para as chapas

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Gilberto Kassab ao lado de Alckmin; filha de Roberto Jefferson ao lado de Dilma, são as voltas que a política dá.

Quem sonha entrar na vida política, um dos talentos que deve desenvolver é a amnésia seletiva. Só isto pode explicar os esboços de alianças que se vê pelo país afora.
Um dos exemplos é a possibilidade do governador Geraldo Alckmin (PSDB) ter como candidato a vice, Gilberto Kassab (PSD). Nas eleições de 2008, ele foi indicado a sucessor pelo então prefeito José Serra (PSDB), quando os tucanos queriam apoiar Alckmin, que no fim foi isolado e derrotado.
Com as voltas que a política dá, nas eleições de 2012, Alckmin esqueceu a desfeita, apoiou Serra, que acabou vencido por Fernando Haddad (PT). E pior, o pivô da briga em 2008, Kassab, terminou aliado da presidente petista Dilma Rousseff. Por isto, será inusitado, agora, Kassab tornar-se vice de Alckmin.
No plano federal, na noite de quarta-feira (21), Dilma recebeu apoio do PTB para sua reeleição. Na foto estavam a filha de Roberto Jefferson, denunciante do Mensalão, e o ex-presidente Fernando Collor, foi cassado em 1992, por denúncias encabeçadas pelo PT. Agora, ele é senador da República, membro da base de apoio da presidente.
Não precisa ser vidente para prever que lá na frente, estas costuras políticas serão facilmente rompidas em nome de projetos políticos pessoais.
É certo que o líder político nunca pode ser movido por rancores ou ódio, porque governa em nome da maioria. O comunista Luis Carlos Prestes apoiou Getúlio Vargas nas eleições de 1950. O cavaleiro da esperança fez aliança com o homem que o perseguiu em 1937 e enviou sua esposa judia Olga Benário para ser morta em câmara de gás, na Alemanha. Questionado, ele sempre justificava que ajudou Vargas em nome do projeto nacional.
Da Era Vargas aos políticos de nosso tempo, tudo isto nos leva a crer que o político é um acometido de amnésia, com surtos a cada dois anos, ou quando é questionado sobre irregularidades e sempre respondem “não sei” ou “não me lembro”.
Mas enfim, a classe política é o reflexo da sociedade a que serve, que também parece ter memória seletiva. Só isto explica a vitória de alguns candidatos nas urnas.

Publicada na edição nº 9697, dos dias 24, 25 e 26 de maio de 2014.